domingo, 9 de outubro de 2016

RAUL BEIJOU MARIA

Jamais li folhetins, ouvi novelas pelo rádio ou as acompanhei pela televisão. Meu tempo é curto para isso. Mas não sou contra as novelas. Tanto que, épocas passadas, as escrevi (Ah, estômago necessitado, a quanto me levaste!)
Trabalhando em determinada agência de propaganda, eu J. Rui começamos traduzindo a “Filha Adotiva”, para a Rádio Nacional, por volta de 1946. Eram 350 capítulos, se me não falha a memória, transmitidos, de segunda a sábado, em etapas de 15 minutos de duração. J. Rui fazia uma temporada, e, depois, passava-me a coisa. Quando eu me cansava, procedia da mesma forma. Com o tempo, perdemo-nos do original inglês. O enredo ficou por nossa conta. Na hora do revezamento, Rui, para evitar que eu lesse tudo o que andou fazendo com os personagens, contava o que fez com eles. Eu prosseguia. E o resultado foi que a mocinha se casou duas vezes seguidas, porque o parceiro se esquecera de dizer que havia providenciado o casamento...
Na velha Cruzeiro do Sul, escrevi novela para Waldeck Magalhães, bom camarada que acabou covardemente assassinado por anormal perverso. Waldeck já possuía o título da estória, quando me chamou: era “Ventura Roubada”, escolhida pelo patrocinador.
– Por que esse nome? – perguntei ao anunciante.
– Porque minha esposa inventou e acha que dá excelente estória.
– Seja feita a vossa vontade, respondi e... mandei brasa.
Os artistas ganhavam cachês, com exceção do Waldeck, o galã, o único que era contratado pela D-2. Ivo Peçanha, diretor da emissora, me disse:
– Temos verba mensal, para os cachês. Quanto mais você economizar artistas, mais perceberá, porque o saldo será seu.
Ao fim do primeiro mês, tínhamos gastos 975 cruzeiros. Ivo confessou:
– A verba é de mil cruzeiros. Você não economizou e vai ganhar apenas 25 cruzeiros.
Protestei:
– 25 cruzeiros por doze capítulos?
– Não posso fazer nada.
Jurei vingar-me da direção da emissora. Meti os personagens num bote e fiz o bote afundar. Morreu todo mundo afogado...
Salvou-se, apenas, Zélia Guimarães, a mocinha. E o primeiro capítulo do mês seguinte foi diálogo de dois, entre Zélia e Waldeck, porque este, como não recebia cachê, deixou de embarcar na canoa que afundou...
Waldeck protestou:
– Assim não é possível!
O segundo capítulo foi pior: ele sozinho. Zélia, sua noiva, tinha viajado. Como Pedro Bloch criara, havia pouco, o “Teatro Monovox”, na Rádio Ipanema, ora com Rodolfo Maier, ora com Amélia de Oliveira (teatro do qual saíram suas peças de um só personagem, como “As Mãos de Eurídice”, “Morre um Gato na China”, etc.), imitei-o num capítulo de “Ventura Roubada”. E Waldeck tornou a reclamar:
– Temos de dar jeito nisso. Como vai ser o próximo capítulo?
– Você não entra.
– De que forma, então, sairá?
– Somente o narrador e ruídos.
Assim prometi e assim fiz. A direção da emissora, apavorada, aumentou a verba, para que eu usasse mais alguns personagens. A novela, porém, chegou ao final apenas com Waldeck e Zélia, e – pasmem, senhores! – foi muito elogiada, inclusive pela esposa do patrocinador, autora do título...
Não sou contra as novelas. Elas voltaram a obter êxito. São a mania em voga, oferecendo os maiores índices de assistência da televisão. E foi sensação na cidade, saindo até nas manchetes, a informação que uma conhecida me deu, outro dia, de manhã, e que muito me espantou:
– Até que enfim, seu Iolando, Raul beijou Maria[1].
E eu:
– Graças a Deus, minha senhora. Graças a Deus!...

(in Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 01 de agosto de 1945)

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1964)


[1] Raul (Hélio Souto) e Maria (Rosamaria Murtinho) eram personagens principais da telenovela “A Moça Que Veio de Longe”, produzida pela extinta TV Excelsior, às 19h00, no período de maio a julho de 1964, escrita por Ivani Ribeiro e dirigida por Dionísio Azevedo, baseada no original do argentino Abel Santa Cruz.

Hélio Souto e Rosamaria Murtinho

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

À BEÇA

Um jornal do Rio publicou, não há muito, na manchete, a locução adverbial "à beça", com cê-cedilha, como manda o figurino. O diretor foi à redação, reclamar do redator-chefe:
—  O senhor viu a manchete?
—  Vi.
—  Quem é o responsável?
O redator-chefe chamou o editor:
—  O senhor viu?
—  Vi.
—  Quem é o responsável?
O editor chamou o secretário:
—  Viu?
—  Vi.
—  Quem é?
O secretário chamou o chefe do "copy-desk":
—  Viu?
—  Vi.
—  Quem?
O chefe do "copy-desk" chamou um sofredor de sua seção:
—  Quem?
O reescrevedor chamou o repórter:
—  Passei a notícia pelo telefone.
      Assim, voltou, do reescrevedor para o chefe do "copy-desk", deste para o secretário, para o editor, para o redator-chefe e para o diretor, a informação de que ninguém na redação era responsável. Em consequência, chamaram o chefe da re¬visão.   E o diretor foi severo:
—  O senhor viu "beça", com cê-cedilha, na manchete?
—  Vi, sim, senhor. Vi em cima da hora. Se não chego a tempo, saía com dois esses.. .
      O diretor perdeu o rebolado. Esperava tudo, menos aquela informação de que os dois esses esta-riam errados. Mas não perdeu a dignidade de diretor:
—  Espero que isso não se repita.
—  Isso o quê?
—  O senhor ser forçado a trocar letras em cima da hora.
—  Sim, senhor.
      Afastou-se o diretor, pisando forte. O chefe da revisão voltou ofendido e bradou, zangado, para os subalternos:
—  Por causa de "bessa" com "ss", o diretor me espinafrou à beça. Espero que isso não se repita.


(in A Ignorância ao Alcance de Todos; Editora Letras e Artes, Rio de Janeiro, 
1ª edição em 1963, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª em 1964 e 6ª edição em 1965.)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

MORREU CHICÃO

Às vezes, mendigo. Outras vezes, delinqüentezinho. Vivia pelo Aterro da Glória. Tinha casa de campo no Parque Laje. Quando as coisas estavam mais difíceis, colhia papéis velhos para vender a peso, ou reunia plantas silvestres, para comerciar nas feiras-livres, anunciando que eram da flora medicinal. E muita gente acreditava que suas ervas quebravam pedras nos rins, curavam reumatismo, consertavam intestinos ou facilitavam a digestão...
Num dia qualquer daquele abril, no Aterro da Glória, Chicão encontrou algo que lhe pareceu conter valores: embrulho bem feito, de bom tamanho, atirado ao chão. Olhou para os lados: ninguém. Apanhou o embrulho. Afastou-se, a passos rápidos. Em outro local, abriu o “tesouro”: eram livros, novinhos em folha, certamente esquecidos por algum turista...
Chicão ficou feliz! Tirara a sorte grande! Nem um o no bolso, e, de repente, aquela “fortuna”! Dinheiro em caixa!
Numa rua de grande movimento, arrumou os livros no canto da calçada e se pôs a vendê-los, como qualquer camelô, embora não soubesse ler, ao menos, os títulos, para apregoá-los de modo mais comercial...
Passou, porém, a turma do DOPS. Para azar do Chicão, um dos policiais sabia ler. Viu obras de Marx, Engels, Lênin, Dobroliubov, Chernischévisque, Franco e outros. Algum apavorado, logo após a revolução, embrulhara os livros suspeitos, e, temendo a polícia, abandonara o pacote no Aterro da Glória.
O subversivo Chicão foi atirado no tintureiro, cercado de metralhadoras, trancafiado no xadrez, levado para a Ilha das Flores, acabou no presídio. Mas passou a sentir-se o homem mais feliz do mundo. Na prisão, tinha casa e comida. Não precisava de pedir nem de delinqüir. Os demais detidos se organizaram em “coletivo”. O que era de um era de todos. Chicão recebeu roupas, cigarros e até doces às sobremesas. Além de tudo, 200 cruzeiros por dia, dos companheiros, para fazer a faxina da cela.
Quando lhe perguntavam qual a melhor coisa desta vida, respondia sem vacilar:
– É ser preso político. E acrescentava:
– Quando houver outra revolução, vou vender livros novamente, mas na Rua da Relação, bem à porta da Polícia Central...
Contei a história de Chicão e fiz apelo ao Marechal Taurino de Resende Neto, para que não o libertasse. O então presidente da Comissão Geral de Investigações anunciara que iria soltar todos os presos sem culpa, guardados havia mais de 50 dias. Ainda por cima, pretendia processar as autoridades policiais que não obedecessem à sua determinação. Diante disso, também solicitei ao Marechal investigador que perdoasse o delegado Cecyl Borer, para que Chicão não voltasse à vida ingrata do Aterro da Glória ou do Parque Laje, porque, na prisão, ele estava mais feliz do que o delegado Borer aqui fora...
O Marechal não me atendeu. Cometeu a polícia mais uma atrocidade: soltou o Chicão, em julho de 64, no frio, num dia chuvoso. Pouco depois, ele foi encontrado morto, num recanto do Parque Laje, sua casa de campo. Dormindo, levara três tiros. Vestia pijama de flanela, doado pelos companheiros da prisão, e tinha no bolso 400 cruzeiros, resto do lucro obtido no trabalho de faxina.
A 15ª DD quis saber quem matou Chicão. Nada descobriu. Nem seu nome completo foi apurado. O cadáver, no necrotério, recebeu apenas um registro: Francisco de tal. As pessoas que o conheceram informaram que ele não possuía inimigos. Ninguém viu o crime. A polícia achou que um grupo de malfeitores atirara no Chicão, de farra.
E muitos leitores me telefonaram, dando pêsames.


(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967.
Originalmente publicada no Diário de Notícias)

quinta-feira, 31 de março de 2016

O BONÉ

Meu grande sonho era possuir um boné cinzento, de casimira, tal qual o do manequim da “Alfaiataria Londres”, na Rua Nova. Tinha de esperar, porém, que meu avô aparecesse pelo Recife. Esperei meses, mas deixei o manequim mais nu do que qualquer vedete de teatro de revista. Levei o boné de meu sonho e ainda mais a calça e o paletó pregueado nas costas, tudo muito à moda do inverno londrino, apesar do calor recifense em novembro...
Guardei o traje, carinhosamente, a fim de estreá-lo domingo, quando o Moderno iria exibir, na matinal, o filme brasileiro Cidade Mulher, com Bandeira Duarte, sob a direção de Humberto Mauro. E passei o resto da semana a visitar, duas ou três vezes por dia, meu uniforme londrino, no guarda-roupa, para ver se estava tudo em ordem.
No dia, madruguei, emocionado. Depois do banho, a fatiota. A seguir, o bonde de Campo Grande, a caminhada ao sol pela Rua do Sol, à margem esquerda do Capibaribe, e, às 9 horas, já estávamos (eu e meu boné) em pleno saguão do Moderno, na Praça Joaquim Nabuco, à espera de Bandeira Duarte, cuja aparição era marcada para as 10 horas. Eu morava no Beco das Almas (claro que por trás do Cemitério de Santo Almiro), lá no fim da Avenida Arquimedes de Oliveira, quase no cruzamento com João de Barro. E, quando passei, todos os vizinhos surgiram às janelas para ver meu boné – e tenho vaga idéia de que alguns até bateram palmas...
No saguão do Moderno, olhando os cartazes, vi anunciado Haroldo Trepa-Trepa, O Último dos Moicanos e outros filmes da época. Prometi a mim mesmo não mais perder as matinais seguintes, para voltar a usar sempre o boné cinzento, de casimira, muito londrino. E acho que até lamentei não haver fog no Recife...
Foi quando ouvimos, lá fora, umas pipocadas estranhas, e a multidão, espavorida, invadiu o cinema, a gritar que havia rebentado outra revolução. Já estava eu mais ou menos acostumado àquilo. Desde 1930, era a mesma coisa, quase todos os anos. Apesar disso, tratei de fugir, investindo contra a volumosa massa de apavorados, em direção à porta. A massa me arrancou o boné, rasgou meu paletó, mas não venceu meu medo. Consegui passar. Da Praça Joaquim Nabuco, emendei uma corrida só, ganhando, lá adiante, a Ponte Princesa Isabel, a avenida do mesmo nome, o Jardim 13 de Maio, Arquimedes de Oliveira, cemitério. Pulei para uma sepultura mais elevada, agarrei-me às asas da estátua de um anjo, galguei o muro, cheguei ao Beco das Almas. Na debandada louca, fui por cima de muitos soldados que se refestelavam em trincheiras, aprontando-se para defender as esquinas recifenses contra o olho de Moscou. E acabei sendo o único da família ferido na revolução, porque, em dado momento, tropecei num fuzil-metralhador Hotchkiss, caí, e me arranhei.
Fracassada a revolução, surgiu a ditadura de Getúlio Vargas. Os integralistas passaram a apoiar, com discursos e desfiles, os carrascos policiais que cometeram atrocidades maiores que as dos nazistas da Alemanha. Com ou sem culpa, pessoas ilustres foram presas pelos sicários de Filinto Strubling Müller, seviciadas e atiradas em calabouços infectos.
Homens de ciência, das letras, das artes, caíram em mãos dos tiras-assassinos chefiados, no Recife, por Emílio Romano. Para qualquer um ir bater na Casa da Detenção (transformada em Presídio Especial) ou na Ilha de Fernando de Noronha, bastava simples denúncia de desafeto. Pouco depois, o Comandante da Região tomou o Governo, enquanto o Governador eleito pelo povo foi mandado às favas. Na prisão, o hino oficial da alvorada era o maracatu É de Tororó, de Capiba e Ascenso Ferreira. O maior psiquiatra da terra cuspiu na cara do capitão Chefe de Polícia, de dentro da cela, através das grades. E a maioria dos bárbaros vive por aí, impune e fagueira, mandando sempre, e cada vez mais, na política.
Uma coisa, porém, me deixa indignado, e minha revolta aumenta todas as vezes em que encontro Bandeira Duarte, o astro de Cidade Mulher: é que, em novembro vindouro, vai fazer 28 anos de tudo que me aconteceu, naquele domingo, do Moderno ao Beco das Almas, inclusive o tropeção no Hotchkiss que me causou escoriações generalizadas.
E até hoje não sei de meu boné cinzento, de casimira, que era a última moda em Londres. ([1])

(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967. 
Originalmente publicada no Diário de Notícias)



[1] Nota do autor.
Esta crônica saiu publicada no dia 28 de abril de 1963. No dia imediato, fui convidado a comparecer ao Serviço Nacional do Cinema. Bandeira Duarte, que faleceu pouco depois, e Humberto Mauro prestaram-me significativa homenagem, com discursos. E me devolveram boné exatamente igual ao que havia sido perdido, fazia 28 anos. Guardo o boné com o mesmo carinho com que guardaria um troféu de herói, ganho na revolução que me feriu... – N. de H.


segunda-feira, 28 de março de 2016

“GAÚCHO”

Não me lembro bem para que jornal trabalhava. Tinha saído, havia pouco, das calças curtas. Havia pouco, também, que deixara de ser aprendiz de suplente de revisor, com as seguidas promoções para suplente, revisor, e, então, repórter. “Diário da Manhã”? “Jornal Pequeno”? “A Cidade”? Lembro-me, não.
Um navio, no cais, conduzia de volta à Capital, o presidente da República. Era, na época, Getúlio Vargas. Deram-me a incumbência de ir a bordo, ouvir s. exa., ficar por perto, registrar os nomes de pessoas ilustres que se aproximassem do chefe da Nação, enfim, fazer a cobertura jornalística da passagem do presidente pelo Recife.
Fiz o que me mandaram. Sempre fui bem mandado.
Getúlio Vargas, no tombadilho, charuto, amigos, risos, pedidos, multidão no cais a saudá-lo. Eu, reporterzinho, por perto, de papel e lápis à mão, anotando tudo. De quando em vez, o espocar, o relâmpago e o fumaceiro do magnésio das antigas máquinas fotográficas.
A certa altura, o presidente divisou, lá em terra, no meio da multidão, com seu enorme chapéu, o Ascenso Ferreira, nosso querido poeta de Palmares. Devo informar não ser isto tarefa difícil. Ascenso é de muitas arrobas, volumosíssimo, figura de grande calado, desloca excesso de arráteis. Estando no meio da multidão, esta lhe bate pouco acima da cintura.
E Getúlio:
- Aquele não é o poeta?
- Sim, informaram. É o Ascenso.
- O autor do poema “Gaúcho”?
- Ele mesmo.
O presidente riu e determinou:
- Mandem chamá-lo até aqui.
Correram os mensageiros. Ascenso veio. Subiu as escadas de bordo. Cumprimentou o chefe do Governo. Aceitou o convite para sentar-se a seu lado. E Getúlio:
- Poeta, o senhor sabe de cor o seu poema “Gaúcho”?
- Sim, excelência.
- Pode declamá-lo?
Ascenso não se fez de rogado. E foi assim que ouvi, pela primeira vez, declamado pelo próprio autor, o poema “Gaúcho”:
“Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das cochilhas!
Saí de meus pagos em louca arrancada!
- Para quê?
- Pra nada!”
Ascenso Ferreira

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 de abril de 1964)

terça-feira, 22 de março de 2016

REVOLUÇÃO

Nos agitados dias de outubro de 1930, o sargento municiou os fuzis do Tiro de Guerra e entregou a seus comandados. João Olímpio abriu a loja e distribuiu uma peça de pano vermelho, para o pessoal patriota amarrar no pescoço, e aproveitar as tiras como enfeite no cano de cada arma. As espingardas de madeira, do ginásio, também foram distribuídas aos voluntários como tática militar – isto é: para fazer número e apavorar o inimigo. Mestre Amadeu, da Banda 15 de Novembro, emprestou dois pistons, o bombo, a caixa e o taró (pois é assim que chamamos o tarol), e foi montada a banda marcial.
Os guerreiros desfilaram sob os aplausos da população, pela Rua do Comércio, e, depois, o sargento pediu ao povo que se recolhesse e às lojas que cerrassem as portas, porque iria tomar a delegacia. Mas todo mundo quis ver a batalha e ninguém atendeu a sua intimação...
Foram ocupados os pontos estratégicos da cidade: a torre da Matriz, a estátua do Anjo, no Pátio dos Currais, o Alto do Galucho e o Trepa-Bode (passagem de pedestres sobre a estrada de ferro). O sargento agarrou um voluntário para levar seu ultimato ao delegado:
- A delegacia ou a vida.
O emissário amarrou lenço branco num cabo de vassoura e seguiu para o Barateiro, acompanhado por verdadeira multidão de curiosos que desejavam saber qual a reação da autoridade. Na delegacia, a sentinela-avançada viu o atirador com o lenço e avisou:
- Seu cabo, essa história de invadir o xadrez é boato. Um guerreiro do sargento vem aí com o lenço branco.
O cabo verificou a veracidade da informação, avisou o delegado, e, em poucos minutos, todo o destacamento correu em direção ao emissário, desarmado, a gritar vivas à revolução.
Então, Amadeu convocou a banda e houve novo desfile, dessa vez com os praças da Brigada também usando panos vermelhos, porque estes simbolizavam o movimento liberal.
Quando a parada chegou à estação, o comandante fez discurso, informando que não ia parar a luta, apesar da adesão dos irmãos “brigadeiros” (os soldados da Brigada). Mas, não havia propriamente, contra quem brigar. E, diante disso, alguém lembrou que a Prefeitura devia ser tomada.
Seguiu a tropa em formação de combate, para a Prefeitura, com o pessoal atrás, querendo ver a batalha. Cercando o prédio, novo ultimato. Bateram à porta, ninguém respondeu. O comando já ia determinar o arrombamento, quando o prefeito surgiu por trás dos guerreiros, com o lenço vermelho ao pescoço, saindo do meio da multidão e perguntando se os meninos não tinham mais o que fazer...
Houve certo mal-estar, não resta dúvida. Um exaltado ainda insistiu:
- É preciso limpar a Prefeitura.
Mas o chefe da Municipalidade rebateu à altura:
- Zé das Cebolas já limpou o prédio hoje. É ele quem faz a faxina. Ganha um cruzado por dia e pago do meu bolso, porque não há verba para no orçamento municipal.
De qualquer maneira, a alegria foi geral. A guerra estava ganha. O povo carregou os combatentes. No Campo da Bica, realizou-se festiva partida de futebol entre o pessoal do Tiro e o pessoal do ginásio. Ganhou o primeiro, por dois a um, com os tentos marcados pelo sargento. À tarde, Amadeu botou a banda para tocar valsas vienenses e brasileiras, assim como alguns tangos, e isso acabou em retreta na Praça do Leão Coroado. À noite, o Esporte Clube fez baile, até o dia seguinte, durante o qual as senhoras da sociedade entregaram uma medalha de Santa Terezinha do Menino Jesus ao sargento.
Era eu um menino que ia completar nove anos. Lembro-me, porém, de tudo. Foram horas gloriosas. E, nestes dias agitados, durante os quais tanto se falou em revolução, recordo-me daqueles instantes de emoção por mim presenciados, na Terra das Tabocas.
Porque, quando Juarez ganhou a briga no Recife, Vitória de Santo Antão já estava até mandando desamarrar os voluntários...


(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 17 de abril de 1964)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

FAMÍLIA

Algum autor, imaginoso e ignorado, já criou estória semelhante, publicada em vários almanaques de propaganda de produtos farmacêuticos. Mas a verdade é que este caso aconteceu, no Rio, tal qual for idealizado. E os personagens são, por conseguinte, da vida real.
Dona Maria José Matos, de 39 anos, residente na Rua Mário Carpenter, 194, no Engenho de Dentro, casou-se, de livre arbítrio, sem incomodar padre nem juiz, com Benedito Pedro Faria, que reside, agora, na Rua Oliveira de Andrade, 195, naquele mesmo subúrbio da Central. Embora 17 anos mais velho que ela, Benedito – ou Bené, como é mais conhecido – viveu 18 janeiros com dona Maria. Depois, deu no pé. E a mulher ficou com seis filhos ao desamparo.
Quando se uniram, Bené estava viúvo e tinha dois rebentos da primeira esposa. Um deles era o Benezinho – Benedito Faria Filho, de 28 anos. Ao ver a madrasta abandonada e os irmãos passando necessidade, Benezinho, que sempre desejou constituir um lar e ter mulher, não vacilou em ser rival do próprio pai...
Casou-se com a madrasta.
Passou a ser padrasto dos irmãos, enteado e marido de dona Maria, enquanto esta, madrasta e esposa de Benezinho, virou nora e ex-mulher do velho Bené, além de cunhada do outro enteado.
Uma vez casada com o irmão de seus seis filhos, ela transformou os meninos em cunhadinhos muito queridos, e, por sua vez, o velho Bené, tendo o filho como padrasto dos seis pimpolhos, tomou posição um tanto extravagante de avô dos próprios filhos. E sua ex-mulher, automaticamente, passou também a ser avó dos pequenos.
Os garotos não sabem se chamam o padrasto de maninho ou de papai. Ignoram se devem chamar o velho Bené de papai ou de vovô. Também ficam em dúvida diante de dona Maria: mamãe, cunhada ou vovó? E o irmão do padrasto é titio ou mano?
Benezinho acha-se doente, sem poder sustentar a família da Rua Mário Carpenter. O velho Bené, que é rico, deverá comparecer com uma mesada, para que não morram de fome a ex-mulher e nora, madrasta e esposa de seu filho mais velho, nem o próprio filho e rival, segundo marido de sua antiga companheira. E, ainda, para que não passem privações seus filhos-netos, enteados e irmãos de seu principal herdeiro, irmãos e sobrinhos de seu segundo herdeiro, além de filhos, cunhados e netos de sua ex-mulher e nora.
Como se não bastasse, vem mais um por aí.
Dona Maria, que apesar de tudo, é feliz com Benezinho, receberá a visita da cegonha, o que era de se esperar, pois, como ficou dito, o nome do marido é Faria Filho, e, por conseguinte, a cegonha teria de comparecer...
O novo membro da família será neto do velho Bené, porque nasceu de seu filho, e, ao mesmo tempo, enteado, porque nasceu de sua ex-cara-metade. Os filhos do velho são igualmente, seus netos. Como os irmãos de Benezinho são netos do Bené, claro que o Benezinho também tem o direito de chamar o pai de vovô. E, em conseqüência, um filho do neto do velho sairá seu bisneto.
Na situação de sobrinho da meia-dúzia de irmãos do pai, o menino ganhará, da mesma forma, o parentesco de irmão dos seis tios, pois todos são filhos da mesma mãe. E, sendo irmão dos irmãos de Benezinho, o filho deste será seu irmão também, e, nesta qualidade, passará, ao mesmo tempo, a tio dos seis enteados do marido de dona Maria.
Claro que a mulher se sentirá muito contente de ganhar seu sétimo filho, irmão de seu esposo, neto e bisneto de seu ex-companheiro. Funcionará com extremada mãe e cunhada do caçula, assim como avó dedicada (porque ele será neto de seu ex-marido), e, do mesmo jeito, carinhosa bisavó do próprio filho.
Tendo passado a padrasto dos irmãos, Benezinho não conseguiu fugir a um fim estranho: é o marido da mãe de seus irmãos. Nesta condição, assumiu a paternidade deles. Ficou, então, como neto do próprio pai, porque os meninos são netos do Bené. Desta arte, seus filhos viraram seus irmãos.
E ele acabou pai de si mesmo...

 (in Telhado de Vidro – Volume I. Bradil, Rio de Janeiro, 1967. Publicado originalmente com o título Família Feliz; in “Telhado de Vidro”; Diário de Notícias,  30/07/1963)