segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O URUBU DO FLAMENGO

NÃO se descobriu como o torcedor conseguiu pegar um urubu, embora se saiba que a Avenida Brasil seja a artéria mais habitada pela família dos Catártidas. Muito menos se verificou, como foi possível amarrar a bandeira do Flamengo, no potente rapinador. E mais curioso ainda foi o cidadão rubro-negro passar pelas catracas do Maracanã, transportando o urubu e a bandeira.


São coisas que só no Brasil – mais precisamente, no Rio de Janeiro – acontecem.
Em conseqüência, o Flamengo, de Tim, beliscou o Botafogo, de Zagalo. A alegria da vitória contagiou todo mundo. A cidade em peso festejou o acontecimento, e o urubu, que era, até então, símbolo do azar, da falta de sorte, igualou-se à ferradura, aos bentinhos, à todos os talismãs. Será, doravante, o amuleto de meus correligionários, dos integrantes da imensa legião à que os magoados chamam de “rubro-negrada”...
A superstição não é apanágio da ignorância. Eça de Queiroz tinha aversão ao próprio nome e só entrava em casa com o pé direito, celebridades as mais diversas, foram supersticiosas. O inglês e lorde Francis Bacon, que fez o Novum Organum, afirmou que “há superstição no fugir à superstição”. Portanto, morrem os argumentos que vêm sendo usados contra a “rubro-negrada”. E a alvinegrada pode sair declamando o verso de Augusto dos Anjos: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”, do soneto Budismo Moderno (Eu e Outras Poesias).
O urubu foi encontrado morto, no fundo do fosso do Maracanã, no dia seguinte. Os torcedores do Flamengo, porem, não lamentaram o fato. Estão prometendo um por jogo, para ajudar o Ministério da Agricultura a limpar a Avenida Brasil (?)...
Tenho para mim que já houve lei considerando o boto, tido como salvador de afogados, e o urubu, que limpa a cidade (garis aéreos), de utilidade pública. Além disso, a Lei das Contravenções Penais pune, com o dobro da pena de prisão simples, de dez dias a um mês, ou multa, quem tratar animal com crueldade, em exibição ou espetáculo público (Artigo 64, § 2º). Logo, os que se propõem a ajudar o Ministério que quer limpar a Avenida Brasil, podem muito bem ser apanhados pelo delegado José Gomes Sobrinho, no Maracanã, embora a multa seja de cem a quinhentos cruzeiros velhos, mais barata que os ingressos para as gerais do estádio de Abelard França...
Mas é facílimo evitar tudo isso. Basta que as chamadas autoridades competentes tirem a carniça da Avenida Brasil e de outros pontos da Cidade Maravilhosa...
Será a sorte dos urubus!...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 8 de junho de 1969)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

CARTOMANCIA

Não sei se o amigo leitor acredita em cartomancia, ou se vai rir do que afirmo. Sei, porém, que muitos fatos podem ser previstos pelas cartas de jogar pôquer.
O dia 1º de fevereiro de 1941 caiu num sábado. Lembro-me como se fosse hoje. Eu namorava a moça argentina chamada Lolita. Acordamos às 8 horas. Ela entrou no banheiro; entrei também. Ela escovou os dentes (os dela) e eu escovei os meus. Ela se meteu debaixo do chuveiro; eu também. Ela veio para o quarto, vestir-se, eu também. Tudo isso – bem entendido – cada um em sua casa.
Às 9 horas, encontramo-nos. De acordo com o combinado, fomos à cartomante da Rua Augusta. A gorda senhora, depois de receber 5 mil réis por cada consulta, disse o futuro de Lolita, prevendo que ela iria casar-se com o valete-de-ouros, um rapaz louro e bonito, o que, decididamente, não era o meu caso...
A seguir, a cartomante insistiu no meu futuro. Mandou que eu cortasse o baralho. Obedeci. E ela, então, pôs as cartas na mesa...
Vi logo as coisas complicadas para o meu lado, porque saiu, de cara, um four de damas. Era mulher demais para um antonense só! Depois, o coringa. Formou-se uma seqüência mínima. O ás-de-copas apareceu. A cartomante identificou-me:
– O rei-de-paus é o senhor.
– Muito obrigado.
Mas o rei-de-paus não apareceu. Insistiu dez vezes, e nada de minha figura surgir sobre a mesa. Por fim, muito abatida, a cartomante confessou:
– O senhor não tem futuro aqui, na terra, meu caro. Não consigo vê-lo nem no fim deste ano. Sua partida está muito próxima. Dentro de dias, o senhor será saudade.
Abraçou Lolita, que, àquela altura, já chorava:
– Meus pêsames.
– Obrigada.
Saímos abatidíssimos. Na primeira esquina, quase um carro me atropelou. À porta de casa, minha namorada argentina acabou nosso romance. Eu ia morrer, e, uma vez que aquele amor estava condenado, achou por bem antecipar-lhe o fim. Sai tonto. Quase caí do bonde. As palavras da cartomante não paravam de me soar aos ouvidos: “O rei-de-paus é o senhor”. O condutor do bonde aproximou-se e ouvi, claramente, quando disse:
– “O senhor não tem futuro aqui, na terra, meu caro”.
– O senhor tem trocado?
Queria que lhe pagasse em dinheiro miúdo. Não tinha troco. Entendi coisa bem diferente. Catei os níqueis na carteira e ele me agradeceu:
– “Não consigo vê-lo no fim deste ano”.
– Como?
– Não consigo juntar dinheiro miúdo.
Dissera algo nada parecido com o que eu imaginara. Eram as palavras da cartomante. O condutor notou alguma perturbação em mim. Perguntou:
– “Sua partida está muito próxima”.
– Como?
O barulho do bonde também me confundia. Não me deixava perceber suas palavras. Insistiu:
– “Dentro de poucos dias, o senhor será saudade”.
– Como?
Gritou:
– O senhor está pálido. Está trêmulo. Sente alguma dificuldade?
– Não, senhor. Obrigado. Estou bem.
– “Meus pêsames”.
– Como?
– Às ordens... Estou às ordens, digo. Se precisar de alguma ajuda, pode chamar-me.
– Muito obrigado.
No domingo, Lolita não me quis ver. Na segunda-feira, quando a procurei, deu-me o golpe de misericórdia:
– Já lhe disse adeus. Morra em paz.
Humilhado, corri a agência da Costeira. Comprei passagem. Na terça-feira, dia 4, às 17 horas, embarquei no Itaqüera. Durante a viagem, seria capaz de jurar que o navio iria a pique. Ao desembarcar em Maceió, onde não havia cais ainda, quase o saveiro me imprensou contra o navio. Momentos depois, um pé-de-vento ia virando a pequenina embarcação. Quando voltei ao navio, tive de recorrer ao médico de bordo, pois estava sofrendo de terrível indigestão provocada pelo sururu que eu comera em excesso, num restaurante da cidade.
Na Bahia, a cartomante já não atuava tão fortemente sobre meu pensamento. Mas, em várias ocasiões, lembrei-me de suas palavras. Uma dessas vezes foi no Elevador Lacerda. Tive a nítida impressão de que o ascensor para a cidade alta não chegaria ao fim da viagem “– Não consigo vê-lo no fim desta subida”. Dois outros passageiros falaram:
– É excelente este elevador! Não sei se conservam bem os cabos. Sem conservação, eles se partem.
– “Sua partida está muito próxima”, respondeu o outro.
Escapei do elevador. Nada me aconteceu na Bahia. Voltei ao Itaqüera. Novamente em alto-mar, lembrei-me da Princesa Mafalda, o navio que naufragara nos Abrolhos. Iríamos passar pelo mesmo ponto. Ganhei a certeza absoluta de que também não escaparíamos. “– Dentro de poucos dias, o senhor será saudade”.
Dentro de poucos dias, entretanto, cheguei ao Rio. Era 11 de fevereiro. Desembarquei, precisamente, no Armazém 13, o número do azar...
Continuei me safando. Logo depois, fui convocado para o Exército. Recebi ordem de voltar pelo Baependi. Consegui ficar no Rio. E o Baependi foi torpedeado...
Não obstante, estava certo de que morreria na guerra, e, para tanto, nem precisaria de seguir para a Itália. Aqui mesmo, o rei-de-paus seria metido num sobretudo também de pau e remetido para o Caju...
Faz isso 26 anos e meses. Durante algum tempo, ainda vivi sem acreditar que vivia. Agora, acredito. Pelo menos, desconfio...
Entretanto, pensando no caso, chego à conclusão de que a cartomante não errou uma palavra sequer de suas previsões. Eu e Lolita é que nos precipitamos. A senhora das cartas de jogar pôquer adivinhou tudo:
– “O senhor não tem futuro aqui, na terra, meu caro”. (Meu futuro deixou de ser na terra, no Recife. Vim para o Rio...) “Sua partida está muito próxima”. (Três dias depois, parti pelo Itaqüera...) “Não consigo vê-lo nem no fim deste ano”. (Não me viu mais, mesmo...) “Dentro de dias, o senhor será saudade”. (Tenho certeza de que virei saudade para Lolita...)
Deu pêsames à moça, mas pelo fim do nosso romance. Sem dúvida por isso...
E é pena, hoje, não poder escrever para Lolita, mostrando que a cartomante estava com toda razão. Porque – esqueci-me até de dizer – Lolita casou-se com o valete-de-ouros e morreu de parto...

(In Telhado de Vidro, volume I, BRADIL, 1967)

Itaquera ou Itaqüera (Foto: Clydeships.co.uk)

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A MESA DE JACARANDÁ

Jamais aquela velha mesa de jacarandá significou alguma coisa para mim. Estava sempre no centro da sala, principal móvel da casa, talvez o maior de todos, maior, às vezes, que os guarda-roupas, mas me passava quase despercebida.

Manuscrito de Nestor de Holanda (junho de 1950)
Seu tamanho normal, o de uso cotidiano, era de quatro tábuas e as duas cabeceiras. Havia dias, porém, em que ela recebia mais seis tábuas, e, então, ocupava toda a enorme sala, cercada de cadeiras, coberta de pratos e talheres, ganhava a toalha de linho bordada à mão, guardanapos dobrados em forma triangular, terrinas, travessas, pratos brasonados – mas isso tudo só acontecia nos dias festivos, quando vinha gente de cerimônia e não se podia tirar o paletó à mesa, e nós, meninos, não tínhamos licença de falar durante a refeição.
Nos dias comuns, todavia, ela se mantinha em seu estado normal com as quatro tábuas. Toalha vermelha de xadrez, pratos de uso, talheres ordinários (a faquinha velha de cabo preto; era a mais afiada), copos simples, cadeiras com assentos de palhinha.
Agora, a indiferença do leiloeiro a apregoar os móveis da sala, frio, mercenário, de martelo à mão, gritando e batendo na mesa:
– Quem dá mais?... Quem dá mais?...
Os lances, os terríveis lances dos interessados, alheios a todo o passado de uma mesa de jacarandá que pode crescer muito mais, que pode ir a dez tábuas e duas cabeceiras. Dentro em pouco, ela sofrerá um preço e seu destino será outro. Para onde irá, levada pelo novo dono?
A vida está cara. Nas mesas não há mais a mesma fartura. Tudo ficou difícil. Não creio a velha mesa da casa de meu avô, tão imponente – dez tábuas, duas cabeceiras, pés grossos bem torneados, coberta de pratos e talheres, toalha de linho bordada à mão, guardanapos dobrados em forma triangular, terrinas, travessas, pratos brasonados – não creio que a velha mesa de meu avô torne ao fausto dos bons tempos. Outras caras. Outros gostos.
– Quem dá mais?... Quem dá mais?...
Por enquanto, a sala ainda está como sempre foi: forrada de papel amarelo, com desenhos vermelhos – desenhos que jamais entendi. Caras? Máscaras? De um lado, parece olho; do outro, não tem olho - tem nariz, boca e uma orelha. Entre as figuras estranhas, flores...
Desde menino vejo, sem entender, as estampas do papel das paredes da sala.
Lembro-me, ainda, de quando todo o casarão foi forrado – o casarão de dois andares, de vinte e dois quartos, o casarão da farmácia de meu avô. Cada pessoa da família escolheu a cor de seu cômodo. Minha mãe, a única que nada exigiu. Era de querer pouco. Concordava sempre. Minha tia, porém, pediu o azul e dourado de seu gabinete, e o azul e branco de seu quarto. Minha avó fez questão do grená e amarelo da sala de visitas. E acho que ficou a cargo de meu avô o papel da sala de jantar.
Os homens trouxeram escadas e rolos e latas de cola – o cheiro da cola ficou, até hoje, em minhas narinas. Era forte, enjoativo. Durante dias, nem o cheiro do feijão da Rosalina – feijão de panela de barro – o abafava. E os homens subiram até na velha mesa, para forrar as paredes.
Foi a última reforma por que passou o casarão. Uma das minhas tias ia casar-se. E a mesa, assim como todos os móveis, envernizou-se, para receber as dez tábuas, a toalha de linho bordada à mão, guardanapos dobrados em forma triangular, terrinas, travessas, pratos brasonados, no almoço depois da cerimônia civil, e na ceia (em dias de festa não se jantava; fazia-se ajantarado), depois do ato religioso.
O guarda-comida à direita da mesa. A cristaleira, à esquerda. Dois consoles. Acima de um deles, à cabeceira de meu avô, o quadro da Ceia Larga. Sobre o outro, um Santo Onofre de costas para a rua. O santo carrega um saco, e, por isso, deve ser usado naquela posição, como se estivesse entrando em casa, para trazer dinheiro, comida e felicidade. E havia quatro cantoneiras, com plantas, além do lustre imenso, de cristal, que se iluminava, apenas, nos dias festivos, quando a mesa recebia as dez tábuas.
– Vou bater... Quem dá mais?... Um... dois... três...
– Um conto de réis!
Estava sendo leiloado o grande jogo de louças, os pratos, as travessas, terrinas, xícaras, chávenas, bule, leiteira, fruteira, tudo com o brasão da família. Tantas peças, de tão boa qualidade, que as louças já estavam em um conto de réis e o leiloeiro gritava que era pouco:

– Quem dá mais?... quatro... cinco... seis... Vou bater...
– Um conto e cem!

(Obs. Texto inédito, escrito em junho de 1950, mês que faleceu sua tia, a escritora Martha de Hollanda. Original em manuscrito, digitado em 6 de dezembro de 2011)

Sobrado citado no texto situado em Vitória de Santo Antão, Pernambuco.
(Foto de Nestor de Holanda, tirada em julho de 1955)

sábado, 27 de abril de 2019

ATUALIZADO

O AMIGO sempre foi louco por cinema. Arrumou passagem. Conseguiu chegar a Hollywood, de onde jurava voltar mais famoso que marido de Elizabeth Taylor. Mas já se acha, o mesmo José da Silva, de regresso ao Rio:
– Fui motorista de praça em Los Angeles. Não aprendi cinema; em compensação, agora, sou bom no volante.
Para mostrar como estava atualizado, sem jamais perder o Brasil de vista, contou que sempre encontrava compatriotas e lia, todos os dias, jornais do país.
– Fiquei tanto tempo fora, mas estou, inteiramente, em dia.
Quando aludimos a Napoleão de Alencastro chamou de senador. Quando citamos a Cinelândia, falou ainda em Gaiola de Ouro. Confessou que sentia saudade de nosso carnaval e disse que, para o ano, vai brincar os quatro dias no “High Life”, para descontar as folias que perdeu. E afirmou que pensava em comprar boxe no Mercado da Praça Quinze, para negociar com frutas, porque foi assim que seu pai enriqueceu...
Sugeri que talvez uma barraca de arroz na feira fosse mais vantajosa. E ele:
– Sossega, leão.
Repetiu outros ditados de seu tempo, para mostrar como não se esquecera de coisa alguma, e, sobretudo, que se achava inteiramente em dia:
– Comigo, não, violão! ‘tás pensando que sou a Valdemar, para ficar na linha? Quero ir pra frente. Preciso de trabalho grau dez. Com a prática que paguei, vou mostrar o que é que a baiana tem.
Desconhecendo que não existe mais níquel:
– Quero me encher de níqueis.
Disse para quê:
– Para voltar a Hollywood e estudar cinema. Quando passar pela Galeria Cruzeiro, todo mundo vai olhar para mim. E – engraçado – sempre desejei que um filme em que eu trabalhasse fosse exibido no Eldorado, lá junto do Café Nice, porque era naquela esquina que eu fazia ponto. E vou conseguir isso.
E o amigo atualizado, lembrando tudo o que é diplomata que fica anos seguidos fora do Brasil, e, quando volta, quer sempre mostrar que não perdeu nossos costumes de vista, contou a última anedota: aquela do papagaio que ia namorar no galinheiro, pisou num fio elétrico, tomou choque e comentou: “– Ué! Namoro antigo e, hoje, estou nervoso!...”

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1962)

Galeria Cruzeiro (Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, anos 40)


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

MARIDOS

Há dois tipos de maridos: o dos que nasceram para a função e os que a exercem por dever, sem a menor vocação doméstica. Os deste tipo não sabem fazer compras para o lar, ignoram todos os preços de gêneros de primeira necessidade, deixam o banheiro molhado, pagam qualquer conserto na casa, jamais empurraram um carrinho de bebê.
O outro tipo, porém, é o ideal. Marido por vocação, por índole, que trouxe do berço o amor à toca e às prendas domésticas, deve merecer a preferência das moçoilas casadouras. Cabe-lhe a carapuça de príncipe encantado. É o marido mesmo.
Leva a patroa, aos sábados, ao cinema, para um filme de amor. Vai à feira, carrega bolsas de compras, escolhe os melhores tomates, discute sobre a carne-seca, xinga o vendedor de frutas. Trata das plantas, cria passarinhos, dá banho nos cachorros. Nos dias de faxina, veste um calção, limpa as vidraças, encera o assoalho, lava banheiro e cozinha. Pela manhã, faz o café. Durante a noite, muda as fraldas do caçula e verifica se os mais velhos estão cobertos. Aos domingos, mete-se na cozinha e faz a peixada, a feijoada, o cozido, e é especialista em saladas e batidas. Quando o filho pede um carrinho, ele não compra; vai para os fundos do quintal, desmancha um caixão e faz o carrinho. Pinta a casa, conserta as dobradiças das portas, enverniza os móveis, fabrica os armários embutidos, levanta muros, cola os ladrilhos, recompõe as vidraças, varre o quintal, arma a antena de televisão, substitui telhas quebradas, contrata empregada, corta as unhas dos meninos, aplica injeções, muda lâmpadas, prega as cortinas, verifica os vazamentos das pias, desentope os esgotos, dedetiza os ralos, funciona como o presidente da Sociedade dos Amigos do Bairro e como diretor social do clube, no qual exerce um mundo de atividades, inclusive o de treinador do quadro de futebol.
Este tipo de marido, muito comum em todos os pontos da cidade, quase sempre é amanuense, e, como tal, conhece os códigos de vencimentos e vantagens, sabe de cor os direitos e atrasados a receber, discute, como ninguém, assuntos ligados a essas questões, usando a terminologia específica: reajustamento, adicionais, enquadramento, paridade, níveis, abonos, salário-família, aposentadoria, móvel. Somando tudo isso, ganha bem (ele acha que sempre ganha mal), tem casa própria, sabe como adquirir tudo mais barato e melhor, faz economias excepcionais, mas não enriquece. Quem enriquece é o outro tipo de marido, o que não sabe coisa alguma, jamais fez compras, ignora todos os preços, deixa o banheiro molhado, paga qualquer conserto na casa e jamais empurrou o carrinho do bebê, porque passa os dias na rua, ganhando dinheiro...
Enfim, conto pequenino episódio, apenas para que o leitor avalie a que extremos vai a habilidade do marido por vocação. Domingo último, um me disse:
- A válvula do banheiro estava vazando. Minha mulher chamou o bombeiro e este cobrou dois mil cruzeiros pelo reparo. Protestei. Mandei que fosse embora, porque, no domingo, eu consertaria a válvula.
Sorriu feliz e continuou:
- Hoje cedo, foi a primeira coisa que fiz. Abri a válvula e verifiquei que, apenas, a mola estava fraca. Sabe como resolvi a situação?
- Vou saber agora.
- Coloquei uma prata de cruzeiro lá dentro, calçando a mola, e a válvula passou a funcionar maravilhosamente.
Depois do ar de vitória:
- Não pagando os dois mil ao bombeiro, economizei mil novecentos e noventa e nove cruzeiros.
E me admirei de um detalhe importante: onde teria aquele marido conseguido, a esta altura dos acontecimentos, uma prata de cruzeiro, objeto tão raro nos nossos dias?!...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1 de abril de 1964)

Nestor de Holanda em seu escritório (1968)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

AMIGOS

ENEIDA me diz que amigo é aquele que avisa quando a gente está com mau hálito. De minha parte, embora aceite essa definição, tenho outra: amigo é o que perdoa os defeitos da gente. Quem não perdoa defeitos é inimigo...
Xandu, latinista primeiro e último de Vitória de Santo Antão, dizia sempre:
Amicus certus in re incerta cérnitur.
Dizia e provava:
– “O amigo verdadeiro se conhece na ocasião incerta.”
Amigo é o que vai consultar-se com o outro, quando o outro é médico, e paga a consulta. É o que constitui o advogado e paga os honorários. É o que apanha algum dinheiro emprestado e paga. É o que vai à livraria, compra o livro da gente e traz (ou não traz) o volume, pedindo:
– Pode me dar seu autógrafo?
Porque o médico vive das consultas O advogado das causas. Quem faz livro talvez seja porque não saiba dar consultas ou advogar; talvez seja porque não saiba fazer mais nada. Em conseqüência, mantém-se graças aos livros. Em outras palavras: é o abnegado que tem a coragem de viver de livros num país em que se ler tão pouco...
Mas nem todos os amigos entendem isso. E o médico ao qual o sujeito que escreve paga consultas exige:
– Estou esperando que você me dê o seu livro.
Também o advogado que cobra honorários:
– Quando é que você vai me oferecer seu último livro?
Há três maneiras bem usuais de pedirem os volumes que escrevemos para viver. Uma delas é a pergunta:
– Onde está à venda seu livro?
Respondo sempre:
– Em qualquer açougue ou padaria...
Outra:
– Estou louco para ler seu último trabalho.
E a terceira:
– Se eu comprar seu livro, você o autografa?
Nenhum dos que pedem se lembra de que as editoras organizadas cumprem seu contrato com o autor. Pagam os direitos autorais e lhe dão vinte volumes. O autor assina os exemplares que vão para os críticos e noticiaristas, e, depois disso, qualquer outro que deseje será abatido em sua conta. Imaginai, pois, este filho humilde de Vitória de Santo Antão a distribuir qualquer edição inicial de cinco mil exemplares com os amigos que perguntam:
– Onde está à venda seu livro?
Ou:
– Estou louco para ler seu último trabalho.
Ou, ainda:
– Se eu comprar seu livro, você o autografa?
Terá de pagar três ou quatro edições ao editor. E ainda deixará os verdadeiros amigos, aqueles que dizem quando a gente está com mau hálito, aqueles que perdoam os defeitos da gente – e ainda deixará os verdadeiros amigos sem encontrar os livros para comprar.

TELHAS-VÃS

·      POEMAS – Os amigos de Santos Morais devem comprar seus Poemas do Hóspede. É o poeta de A Nuvem de Fogo e Tempo e Espuma. O romancista de Menino João e Os Filhos do Asfalto. O contista de O Caçador de Borboleta. O teatrólogo de Rei Zumbi e A Terra Sangra. O ensaísta de Dois Cientistas (Rocha Lima e Gaspar Viana). Antônio Santos Morais, baiano de Casa Nova, é detentor de vários prêmios: o de romance do Instituto Nacional do Livro, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras e o de teatro também da Academia Insisto: seus amigos devem comprar Poemas do Hóspede, coletânea recém-saída pela Editora Luan.

·      CRÔNICAS – A Editora Sabiá acaba de lançar a 4ª edição de A Borboleta Amarela e a 5ª edição de Ai de ti, Copacabana!, dois volumes de crônicas de Rubem Braga. Chegam-me os exemplares com o amabilíssimo cartão do Braga: “Você já deve ter esses livros, por isso mando só autografados e você poderá dar a alguém de presente de Natal”. Passou o Natal e não dei os livros do Braga a ninguém. Não tiro de seus amigos o direito e a alegria de comprá-los. Não digo que Rubem Braga é o nosso maior cronista, porque odeio essa coisa de “o melhor” ou e “o maior”. Digo, todavia, sem medo de errar, que qualquer cronista tem de rebolar muito para equiparar-se ao Braga. Logo, comprar seus livros não é favor; é uma obrigação até dos que, porventura, não sejam seus amigos... (E outra coisa, meu Braga: fui às livrarias, comprei livros seus e os dei de presente, pelo Natal, porque, no Natal, não dou gravatas de borboletas nem vidrinhos de perfume; dou bons livros!)

ÁGUA-FURTADA

POR FALAR em bons livros e na editora Sabiá, Fernando Sabino, outro cronista que não deve ser classificado como “o melhor” ou “o maior”, porque isso é propaganda de gasolina, lança a 5ª edição da Medo em Nova Iorque – a Cidade Vazia. Isso mostra que seus amigos compraram seus livros, no que fizeram muito bem. E mostra que outros amigos devem fazer o mesmo antes que a 5ª se esgote e tenham de esperar pela 6ª, o que acontecerá, fatalmente. E GABRIEL Garcia Marquez, como sabeis, é o autor de Cem Anos de Solidão, dos melhores romances saídos, nos últimos anos, em todo o mundo. E, agora, a Sabiá lança a novela Ninguém Escreve ao Coronel, do notável colombiano. Tradução de Virgínia Wey. Capa e desenhos de Carybé.

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1970)

Alex Viany, Eneida e Nestor de Holanda (Rio de Janeiro, 1961)
(Obs.: Foto tirada durante o Programa de Haroldo Costa na TV-Continental)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

VARANDINHA DE PENSAR

         MINHA DESARRUMADA sala de escrever e de ler tem varandinha. O apartamento é de fundos. De quando em quando vou à varandinha. Penso. Respiro. Volto à máquina ou ao livro. E concluo que a varandinha é tudo o que me resta para pensar e respirar livremente.
Sou homem perigoso. Nenhum Mineirinho ou Zé da Ilha, Sete Dedos ou o Vampiro da Avenida Brasil, Lampião ou Antônio Silvino, nem Barba Azul, Poulailler, Fra-Diavolo, Al Capone, Jack, o Extirpador, Sawney Bean, Joseph Albert Guay, Jimmie Nannery, Maurice Rousson, nenhum deles, até hoje, cometeu maiores atrocidades que eu, ou foi mais perigoso às instituições.
Sou jornalista de alta periculosidade.
Conto o que sei e o que vejo, porque sinto a volúpia de informar. É vicio que tenho, este de noticiar com segurança, de dizer a verdade. Então, um Poulailler, que cometeu mais de setecentos crimes, não chega a meus pés. Sou pior. Setecentas vezes pior. Matar, massacrar, espancar, dar choques elétricos, usar pau-de-arara, maçarico, cassetete, sabre, pata de cavalo, matar jovem indefeso de 18 anos – nada disso tem a gravidade do crime de informar. Este tipo de criminoso sofre reprimendas terríveis:
– O senhor noticiou que mandamos tosquiar estudantes e que os mantivemos detidos sob sevícias.
– Foi a verdade. É meu dever.
– Mas sua notícia é alarmista. Cria pânico na população. O senhor está tentando incompatibilizar o Governo com o povo.
– Juro pelas barbas de Santo Antão como jamais pensei nisso.
– O senhor pode jurar, mas cometeu abusos no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação.
– Desculpe, mas meu fotógrafo está machucado. Meu repórter ficou hospitalizado, com suspeita de fratura do crânio. Eu, apenas, publiquei as fotos de jornalistas, estudantes e povo apanhando. É meu dever. Não estou fazendo campanha contra ninguém, não quero incompatibilizar ninguém, não sou alarmista nem penso, jamais pensei, em subverter a ordem pública. Muito pelo contrário, adoro a ordem, a disciplina, o respeito às leis.
– Comunista!
Já escrevi, certa vez, que não é possível pegar um elefante enfurecido e convencê-lo de que pertencemos à Sociedade Protetora dos Elefantes...
Tenho de refrear, então, meus instintos bestiais, monstruosos, lombrosianos, de informar. Não devo escrever sobre tudo o que sei, sobre tudo o que vejo – e pouca gente sabe que não escrevo tudo o que vejo nem tudo o que sei...
Então, adoro minha varandinha de pensar. Teoricamente, tenho à minha disposição uma área de 8.513.841 quilômetros quadrados, mas acabo de descobrir que tanto espaço me asfixia. Só consigo mesmo pensar e respirar livremente na varandinha de um metro por três. É minha jaula aberta. Onde não sou perigoso. Doravante, darei notícias aos senhores sobre ela. Não cometerei o crime de informar sobre tudo; cometerei, apenas, as insignificantes contravenções de dar notícias sobre minha varandinha de pensar.
Contando a história da vizinha que muda de roupa com a janela aberta, não creio que cometa abuso no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação...

TELHAS-VÃS

·      JOEL SILVEIRA – Meu irmão Joel – irmão pelo afeto – também é pior que Jack, o Extirpador. Sim, porque figura entre os jornalistas que não têm medo de enfarte nem estão interessados em convencer ao ilustre membro da família dos Proboscídeos de que pertence à Sociedade Protetora dos Elefantes. Assim, Joel Silveira é um monstro, um Jack, perigoso para as instituições. Não sabe mentir aos seus leitores, não sabe escrever o que os outros pensam, não faz da profissão escada para altas posições, chega pobre como o Iolando ao fim de uma carreira exercida com amor e abnegação. Pode ser comparado pelos orientadores da inteligência nacional a um criminoso da importância de Henri-Desired Landru, aquele conquistador-assassino de numerosas noivas. Também vai ficar na história como perigoso. Agora mesmo, acaba de cometer crime que é fichinha junto de um latrocínio em dois velhos: publicou pela Biblioteca Universal Popular o livro “Um Guarda-Chuva Para o Coronel”, no qual analisa a política nacional, com o talento e o estilo leve que os leitores conhecem. “Valerá a pena tanto esforço diante da mediocridade e insignificância de nossas elites dirigentes?”, pergunta Paulo Francis, na apresentação do livro. Respondo eu: – “Acho que não. O melhor é Joel arranjar uma varandinha de pensar. Não ofereço a minha porque é pequenina. Não cabem duas lacraias. Também não sei se será fácil encontrar, no momento, outro recanto em que se possa pensar e respirar tão livremente. Mas quem sabe se a sorte ajudará o excelente e talentoso companheiro para ele conseguir outra varandinha, de apenas um metro por três, em 8.513.844 quilômetros quadrados? Pensar e respirar não fazem barulho. Não incomodam os vizinhos. Ninguém sabe que estamos respirando e pensando. É bom que é danado. Arranje outra varandinha, Joel”.
·      HÉLIO SODRÉ – Juiz e escritor. Veio à redação. Matou as saudades de seu tempo de jornal. “Escola de vida”, exclamou. Visitou o Iolando e trouxe ao pacato antonense os três volumes, de sua valiosa “História Universal da Eloqüência”, lançada pela Livraria Forense. É a ação dos grandes oradores, através de todos os tempos. No primeiro volume, fala da antiguidade clássica e do renascimento; no segundo, sobre os povos modernos; e no terceiro sobre os brasileiros. Trabalho que não pode faltar às boas estantes. Estou com ele aqui na varandinha de pensar, ao lado da espreguiçadeira. Sodré também é companheiro de hoje. Nem tudo está perdido.

ÁGUA-FURTADA

“A DOUTRINA Social da Igreja”, de Henry George e Leão XIII, é livro indispensável à compreensão do pensamento católico sobre as duas questões que, atualmente, agitam os povos e revolucionam o mundo: a terra e o trabalho. Pelo menos é o que informa a Gráfica Editora Laemmert. Ao ver isso, desisto de levar o volume para a minha varandinha de pensar. Nasci de família católica, fui batizado e crismado, fiz a Primeira Comunhão, tenho cá minhas simpatias por Santo Onofre e por São Benedito, padre Pita quis que eu fosse coroinha na Matriz de Vitória de Santo Antão, assisti às aulas de catecismo do coadjutor, mas não quero ser tido como subversivo, imbuído da doutrina social da igreja, sobretudo quando esta focaliza o trabalho e a terra. Não me adianta ficar na mesma célula de Dom Hélder ou na de Dom José de Castro Pinto. Já disse que na varandinha deste escritório desarrumado a espreguiçadeira é apenas para que eu possa pensar e respirar livremente. Qualquer dia haverá quem passe a considerar a missa uma concentração perigosa para as instituições, o que, aliás, já aconteceu no dia da missa de sétimo dia pela alma do estudante Edson Luís de Lima Souto. Os estudantes e o povo agrediram a polícia, porque o estudante se suicidou no Calabouço. Foi uma barbaridade! Alguns estudantes pegaram ingênuos e indefesos meganhas e tiras do DOPS e prenderam esses inocentes, maltratando-os, seviciando-os cruelmente. Pobres vítimas. Os estudantes são uns monstros!...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 de abril de 1968)