domingo, 10 de outubro de 2021

FILME INFANTIL

O assunto foge ao pequeno alcance de meus conhecimentos. Tenho cá comigo, todavia, uma dúvida: será conveniente teatro infantil representado por crianças?

Deixo a questão aos pedagogos.

Assisti, em alguns países mais desenvolvidos, no assunto educação, que o nosso, a alguns espetáculos para crianças. Os atores eram adultos.

Um professor me disse:

- O teatro de crianças cria nas espectadoras certa inveja, a qual pode transformar-se numa espécie de sentimento de inferioridade. Ao mesmo tempo em que a menina assistente gosta da beleza e da bondade da que interpretou, digamos, a Branca de Neve, pode julgar que não é tão boa nem tão bela quanto a outra...

Ainda perguntei:

- Não haveria a possibilidade da espectadora aceitar o exemplo, e, recebendo a lição da peça, procurar ser tão boa e tão bela quanto a outra?

- Dificilmente, esclareceu o professor. A prática tem demonstrado o contrário.

Não sei até que ponto isso é real. O assunto, já disse, foge ao pequeno alcance de meus conhecimentos. Por isso, a dúvida permanece. Temos educadores, pedagogos ilustres, que poderão dar a última palavra sobre essa questão...

De qualquer maneira, assisti, com entusiasmo, ao filme “O Parque”, realizado, por iniciativa própria, pela culta (embora jovem) professora Maria José Alvarez. E não posso negar: assisti a espetáculo extraordinário, admirável, encantador.

A Profª deu-me a honra de uma exibição especial de seu filmezinho de quinze minutos de duração. Carlos Alberto, o “China”, de 11 anos de idade, faz o papel principal do menino pobre que se põe a trabalhar, para conseguir dinheiro a fim de gozar as delícias de um parque de diversões. Engraxa sapatos, vende garrafas vazias, ajunta ferro velho, negocia até seu canário cantador, e, quando reúne o suficiente para pagar ao carrossel, à roda gigante etc., o parque de diversões já encerrou a temporada e foi desarmado...

É comovente. O roteiro foi escrito pela menina Graça Rangel, de 15 anos, aluna do segundo ginasial. Carlos Egberto, tem 17 anos. Claro que a orientação coube a adultos, porque há cortes excelentes; mesmo assim, foi um filme de crianças para crianças. Estas atuaram, inclusive, no laboratório. E, num caso como este, não creio que se aplique, de forma alguma, o ponto-de-vista do mestre que me falou sobre a Branca de Neve.

“O Parque” é educativo. Exibe aspecto construtivo de grande alcance, de beleza rara. O espectador mirim se compadece do menino pobre. Vive, na luta do “China”, o drama comum, bem brasileiro, de milhares de meninos pobres. Sente a indignidade social da divisão de castas. Aprende ida. Aprende amor. Honradez. Importância do trabalho como fator de vitória. E foi pena a vitória do “China”, pelo trabalho, não se tivesse concretizado...

Sem nenhum apoio, empregando verbas de sua própria economia, com sacrifício, idealismo, dedicação, a Profª Maria José Alvarez realizou algo admirável. É mestra na acepção do vocábulo.

E não duvido de que venha a sofrer perseguições movidas pela inveja das que não sabem fazer o mesmo...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1964)

sábado, 9 de outubro de 2021

OS ROUXINÓIS

       Se você estiver procurando apartamento para alugar, não mais pergunte se falta água, não tome conhecimento do preço do aluguel nem queira saber se a morada é clara ou escondida do sol. Pergunte, apenas:
        - Há alguma vizinha que seja soprano?
        Em caso negativo, pague qualquer aluguel. Deixe a água do Guandu faltar em abundância. Não se preocupe com a ausência de luz ou de ventilação. O sossego é tudo!
        Se acontecer resposta afirmativa, fuja. Para bem longe. Ponha em quarentena, uma área circunvizinha de, no mínimo, 50 mil metros quadrados, que é, pelos meus cálculos, o raio de alcance dos bramidos de soprano gordo. E vá ser inquilino em outra freguesia.
        Ouça a chamada voz da experiência: Se não seguir este conselho, você, amanhã,  estará no meu caso. Ouvirá, todas as manhãs, o enterro de uma melopéia. Depois que a “vaca leiteira” apitar o suficiente (isso em seus ouvidos) para chamar a freguesia; depois que o amolador também em seus ouvidos, soprar na gaita o alerta às tesouras cegas; depois que o garrafeiro abrir o grito para saber quem tem garrafas e jornais velhos - entrará em seu edifício uma pianista aposentada, transportando Franz Liszt ou Richard Wagner debaixo do sovado. Será a acompanhante do rouxinol vizinho. E suas oiças passarão a viver sob o massacre de gorjeios mal-assombrados, com perseguição da aposentada.
        Adeus bem-estar matinal!
        Cada trinado será provocação em dó sustenido maior, o maior de todos os dós.  Você sofrerá violentos agudos em 1.300 vibrações por segundo. A garganta dos sopranos, para perturbar ainda mais os vizinhos, tem precisão de aperfeiçoar-se, todas as manhãs, a fim de conseguir altura, timbre, duração e intensidade. Tudo isso é praticado, a um só tempo, em individuais monstruosos que, estouram em sua janela e entram pela casa, invadindo todos os cômodos.
        Esses animais volumosos são chamados de rouxinóis. Lá em Vitória de Santo Antão, meu porto de origem, rouxinol é corruíra, pássaro meigo, que canta e canta bonito. Aqui, como acabamos de descobrir, rouxinol é a senhora grossa na Linha do Equador, abarrotada de acidentes geográficos, que, ao sair de casa, põe na cabeça um chapeuzinho com uma pena indicando o norte magnético, a qual serve para se saber se a dona está de frente ou está de costas.
        Ainda outro dia, encontrei-me com a corruíra do edifício em que moro. Apertei o botão do elevador e ela veio dentro. Como se trata de um Otis, com capacidade máxima para dez passageiros, sob pena de multa, eu, que não queria pagar a multa por excesso de peso, perguntei se o elevador estava lotado. O rouxinol respondeu que não, balançando a cabeça e  a peninha de sua bússola de cocuruto. Mas estava. Eu vi que estava...
        Meu edifício tem 48 apartamentos, todos grandes. Juntando com os prédios que o circundam, são mais de dois mil apartamentos. Ninguém incomoda ninguém. Só um rouxinol, todas as manhãs, distribui intranqüilidades a domicílio, pela jurisdição...
        Por que o Governo não cede ilha da Guanabara, das mais isoladas, para servir de viveiro aos rouxinóis?!
        Depois de ler este conselho, até aqui, você pode considerar-se avisado. De hoje em diante, só cairá em terreno minado por sopranos, se quiser. Não poderá mais ser pegado à traição, como eu fui.
        Tanto que escrevo, neste momento, sob a tremenda tensão de ter de ouvir os mais formidáveis gargarejos que um homem pode sofrer. Basta dizer que minha vizinha faz individual, hoje, com a  “Granada” do Sr. Agostin Lara.
        E espero, a qualquer momento, que ela estoure, levando pelos ares dois mil apartamentos, o que destruirá grandes empreendimentos imobiliários....
 
   (In Ah! Saudade Engraçada!..., Livraria São José, 1962;
e também, in Telhado de Vidro, volume II, BRADIL, 1967)

 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

RECIFE

VELHO AMIGO vem visitar-me. Pede minhas impressões sobre o novo Recife. Digo-lhe que me sinto velho diante da cidade que me viu nascer. Bairros inteiramente reconstruídos, edifícios de mais de vinte andares, movimento intenso, largas avenidas, demolições constantes dos antigos pardieiros, pontes recentes, visível e assustadora explosão democrática.

– O Recife não cresceu, afirma. Inchou.

– Teria sido em conseqüência das enchentes?

– Decerto.

Caminho pelas ruas modificadas. Tento localizar pontos que me eram familiares. Relembro episódios. Há vinte e seis anos deixei a cidade de vez, mas apenas há quatro meus olhos não reencontram o Capibaribe.

Não conhecia a Ponte do Limoeiro nem a Avenida Norte. O Banco do Brasil e o Pronto Socorro ocupam majestosos edifícios. As avenidas Guararapes e Visconde da Boa Vista, ligadas pela Ponte Duarte Coelho, são a espinha dorsal do Recife. Perderam a expressão as ruas Nova e Imperatriz. Boa Viagem foi assassinada pela ganância imobiliária: não mais os coqueiros, as lindas residências. Ganhou prédios, apartamentos, comércio, quer ser Copacabana. Agora, quem desejar paisagens nordestinas à beira-mar terá de ir mais para o sul, para Piedade. Candeias. Gaibu.

O trânsito necessita, urgentemente, de um Fontenele. Excesso de veículos e, por conseguinte, disputa constante entre motoristas. Se qualquer pessoa levanta o braço, distraidamente, para coçar a cabeça, um carro de aluguel pára, pensando que foi chamado...

Morei quase vinte anos no Recife. Residi em vários bairros: Boa Vista, Santo Antônio, São José, Dérbi, Casa Amarela, Prado, Torre, Capunga. Jamais vi enchentes, do Capibaribe ou do Beberibe. O mar batia fortemente em Olinda, todavia, não ameaçava as casas. Algumas vezes, cheias, com os rios sujos, mas sem que as águas invadissem residências, destruíssem pontes e derrubassem os cais. Entretanto, a cidade inchou. Nada foi planificado. Aterros e mais aterros. Fecharam o acesso das águas. O mar invadiu Olinda. Construíram arrecifes pelas praias dos Milagres, Carmo, São Francisco, Farol e Cajueiros. Também naqueles lados, quem quiser paisagem nordestina à beira-mar terá de ir mais para o norte, para o Rio Tapado, Casa Caiada, Rio Doce. Os velhos mangues desapareceram. Cada nova ponte é barragem. E os rios transbordam com. facilidade...

As enchentes do Recife não são provocadas, como as do Rio de Janeiro, por imensas precipitações pluviais. Basta uma chuva mais forte no interior, lá nas nascentes, para a cidade sofrer. Muita vez, nem chove no Recife, mas as águas sobem, passam de dois metros em vários bairros, destroem tudo. E trazem milhares de cobras venenosas para as casas recifenses.

Uma senhora foi mordida num ônibus, A cobra estava embaixo da almofada do assento. Um conhecido matou nove, das mais temíveis, dentro de casa. Um outro me disse:

– Fiquei impressionado. De manhã cedo, fui ao banheiro, fazer a barba. Encontrei duas cobras dentro do armário. Como entraram ali é mistério...

As autoridades nada fizeram, até agora, para evitar as enchentes. Estão reconstruindo pontes e cais que tombaram, para que outras inundações os derrubem novamente...

Assim encontrei o novo Recife. Pouco resta do velho, das ruas tortuosas de minha infância, das praias de minhas vadiagens, das escolas que me expulsaram como aluno indisciplinado. A paisagem é outra.

O Recife inchou.

Recife, PE, em 1967 [Imagem do Arquivo Nacional]

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 17 de março de 1967)

quarta-feira, 23 de junho de 2021

INFÂNCIA SEM INFÂNCIA

Fui criança feliz. Tive quintal. A mangueira mais alta era meu avião. Eu o pilotava entusiasmado, e com a maior facilidade, saía do Recife e chegava a Caracas. Por que Caracas? Não me lembro mais da razão de ir sempre àquele Estado (eu, achava que Caracas era um Estado). De lá, corria países diversos: Lisboa, França, Portugal, o Havre (Lisboa era país, e o Havre era terra de minha madrinha).

Tive as praias do Pina e de Olinda, para correr, jogar bola, pescar sobre as pedras, até para tomar banho salgado. Velejei em muita jangada de alto, peguei mar brabo, fui às paredes, fiz pescarias de dormida, de covo, de cerrador – já crescido, comprei uma jangada para mim, novinha em folha, com o Popey no alto da vela, para que as meninas a identificassem ao longe...

Nada me comove mais, por tudo isso, que ver a infância do Rio. De modo geral, ela se divide em dois grupos: o dos menores abandonados, sem lar ou vivendo em barracos de morros, de qualquer forma em aprendizado constante de crimes de toda espécie e, já revoltados diante da injustiça social; e o dos engaiolados, seqüestrados pela própria vida nos apartamentos. Ambos os grupos são vítimas de uma cidade ingrata, sofrida, sacrificada; ambos são a infância sem direito à infância.

Menino de apartamento, mesmo quando mora perto da praia, onde brinca? Se vai para a areia, sofre um mundo de restrições. A bola é proibida O mar é perigoso. Pouco tem para onde correr, entre barracas e biquínis ao sol. Na rua, o trânsito intenso e lotações atropelando, até sobre os passeios. Na calçada, o porteiro reclama a bola, a bicicleta, as corridas ou o barulho. Nos corredores do edifício, os demais vizinhos protestam contra a algazarra. Dentro de casa, a mamãe, sempre a mamãe:

– Não me suje a sala.

– Não me desarrume o quarto.

– Não me estrague as almofadas.

– Não corra no encerado.

Tranca-se o menino, isolado, em vida sedentária, à sombra, sem ar, no ambiente impróprio para a sua idade. Vê televisão, com a. qual mais se corrompe, e não, anda descalço, porque não há água para lavar os pés. E quando se tranca, para brincar silencioso, cativo, fazendo por onde não sofrer repreensões, a mamãe, sempre a mamãe, desconfia de seu silêncio e chama a empregada:

– Maria, vá ver o que os meninos estão fazendo e diga a eles para não fazerem isso.

Fui criança feliz, tive quintal, praia, jangada veleira, nadei, pesquei, fui à Caracas pilotando a mangueira. Devo a isso o fato de só ter adoecido quarenta anos depois, de uma Senhora Margarida no duodeno. E me comovo ao ver a infância infeliz do Rio, abandonada ou presa demais, com excesso de liberdade ou sem nenhuma, esquecida sempre – ou, quando muito, brincando uma vez por ano, nas ruas de recreio, para ajudar as promoções de um vespertino.

Senhores, a infância é nosso maior problema, é o primeiro ponto nacional para uma reforma de base!

(Publicado no Diário de Notícias, Rio de Janeiro, em 7 de janeiro de 1964)

domingo, 1 de dezembro de 2019

AH! SAUDADE ENGRAÇADA


            A gente dava mais de cinco contos por um jogo de arreios. Mas não dava um tostão pelo cavalo. Porque cavalo a gente roubava.

*
*         *

            A lua passava bem alto, por lá. Bem alto mesmo. Para que a gente não roubasse o cavalo de São Jorge.

*
*         *

            Um dia, inauguraram a iluminação elétrica de cidade perto. Foi festança! O Governador compareceu. Houve programa solene. Banquete, discursos e desfile do Grupo Escolar.
            À noite, o Governador, debaixo de palmas, ligou a chave central da usina elétrica, para iluminar, pela primeira vez, a cidade.
            Foi desastre!
            As lâmpadas estavam piores do que os candeeiros de querosene. O motor, fraquíssimo!
            Imediatamente, o eletricista passou a examinar a coisa. Depois de muito tempo, descobriu o defeito. É que, quando o motor foi transportado para lá, passou por nós.
            E nós roubamos quatro cavalos do motor...

*
*         *

            Tive um tio que não acreditava em lâmpada ou em avião. Quando liam, para ele, as notícias da Primeira Grande Guerra, cujos telegramas falavam de combates aéreos, meu tio batia com a bengala no chão, indignado, e protestava:
            – Nunca vi bicho mais mentiroso do que jornal! Um homem lá pode voar?!
            E quando Vitória de Santo Antão foi iluminada a eletricidade, ele subiu numa escada e soprou a lâmpada, para apagá-la. Não conseguindo, desceu, benzendo-se:
            – Isso é invento do capeta!

*
*         *

            O chefe do vagão dos correios era outro tio meu. Passava a semana toda viajando, de Recife para São Caetano, de São Caetano para Recife. Seu dia de folga era em Vitória de Santo Antão, no meio do caminho. O mais viajado da família.
            Tinha, por isso, o apelido de “Almirante”.

*
*         *

            Às 18 horas, chegava o trem da tarde. Fazia, em Vitória, o ponto-de-jantar. Demorava 20 minutos. Os passageiros corriam para o Hotel do Fortunato. Pagavam a refeição completa.      E o hotel servia a sopa bem quente...
            Quando os viajantes acabavam de esfriar a sopa, o trem apitava e eles saiam correndo, sem tempo para acabar de comer...
            Mas caixeiro-viajante, que sempre foi bicho sabido, já conhecia o sistema. E logo que entrava no hotel, pedia:
            – Manda o jantar. Não quero sopa...

*
*         *

            O chefe da estação passou a vida toda a sonhar em, uma dia, vir a ser mágico profissional. Não conseguiu. Era bom chefe-de-estação.
            Como fracassou no ideal, não admitia que os mágicos se exibissem no Cine‑Teatro Diogo Braga. Conhecia todos os truques, ia lá e estragava os espetáculos.
            Certa ocasião, um mágico decidiu trancar‑se numa mala e mandar que o amarrassem, por fora, para, depois, escapar da mala fechada. O chefe da estação se ofereceu para ajudar.       No palco, arrancou o parafuso da saída falsa...
            Resultado: o mágico ficou preso mesmo...
            A segunda parte do espetáculo, porém, era de ventriloquia. E os bonecos disseram horrores do chefe-de-estação...
            Então, o chefe subiu, novamente, no palco, e deu um soco na cara do boneco...

*
*         *

            Minha tia chegou à janela e viu, no prédio fronteiro, minha outra tia, solteirona. Elas se odiavam cordialmente. A de lá gritou, porque a de cá estava cheia de flores no cabelo:
            – Parece o jardim suspenso da Babilônia!
E a de cá respondeu:
            – Parece os últimos dias de Pompéia!

*
*         *

            Ah! Saudade engraçada!...

(in Ah! Saudade Engraçada! - Prêmio Orlando Dantas do Diário de Notícias. Edição: Livraria São José, Rio de Janeiro, 1962)


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O URUBU DO FLAMENGO

NÃO se descobriu como o torcedor conseguiu pegar um urubu, embora se saiba que a Avenida Brasil seja a artéria mais habitada pela família dos Catártidas. Muito menos se verificou, como foi possível amarrar a bandeira do Flamengo, no potente rapinador. E mais curioso ainda foi o cidadão rubro-negro passar pelas catracas do Maracanã, transportando o urubu e a bandeira.


São coisas que só no Brasil – mais precisamente, no Rio de Janeiro – acontecem.
Em conseqüência, o Flamengo, de Tim, beliscou o Botafogo, de Zagalo. A alegria da vitória contagiou todo mundo. A cidade em peso festejou o acontecimento, e o urubu, que era, até então, símbolo do azar, da falta de sorte, igualou-se à ferradura, aos bentinhos, à todos os talismãs. Será, doravante, o amuleto de meus correligionários, dos integrantes da imensa legião à que os magoados chamam de “rubro-negrada”...
A superstição não é apanágio da ignorância. Eça de Queiroz tinha aversão ao próprio nome e só entrava em casa com o pé direito, celebridades as mais diversas, foram supersticiosas. O inglês e lorde Francis Bacon, que fez o Novum Organum, afirmou que “há superstição no fugir à superstição”. Portanto, morrem os argumentos que vêm sendo usados contra a “rubro-negrada”. E a alvinegrada pode sair declamando o verso de Augusto dos Anjos: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”, do soneto Budismo Moderno (Eu e Outras Poesias).
O urubu foi encontrado morto, no fundo do fosso do Maracanã, no dia seguinte. Os torcedores do Flamengo, porem, não lamentaram o fato. Estão prometendo um por jogo, para ajudar o Ministério da Agricultura a limpar a Avenida Brasil (?)...
Tenho para mim que já houve lei considerando o boto, tido como salvador de afogados, e o urubu, que limpa a cidade (garis aéreos), de utilidade pública. Além disso, a Lei das Contravenções Penais pune, com o dobro da pena de prisão simples, de dez dias a um mês, ou multa, quem tratar animal com crueldade, em exibição ou espetáculo público (Artigo 64, § 2º). Logo, os que se propõem a ajudar o Ministério que quer limpar a Avenida Brasil, podem muito bem ser apanhados pelo delegado José Gomes Sobrinho, no Maracanã, embora a multa seja de cem a quinhentos cruzeiros velhos, mais barata que os ingressos para as gerais do estádio de Abelard França...
Mas é facílimo evitar tudo isso. Basta que as chamadas autoridades competentes tirem a carniça da Avenida Brasil e de outros pontos da Cidade Maravilhosa...
Será a sorte dos urubus!...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 8 de junho de 1969)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

CARTOMANCIA

Não sei se o amigo leitor acredita em cartomancia, ou se vai rir do que afirmo. Sei, porém, que muitos fatos podem ser previstos pelas cartas de jogar pôquer.
O dia 1º de fevereiro de 1941 caiu num sábado. Lembro-me como se fosse hoje. Eu namorava a moça argentina chamada Lolita. Acordamos às 8 horas. Ela entrou no banheiro; entrei também. Ela escovou os dentes (os dela) e eu escovei os meus. Ela se meteu debaixo do chuveiro; eu também. Ela veio para o quarto, vestir-se, eu também. Tudo isso – bem entendido – cada um em sua casa.
Às 9 horas, encontramo-nos. De acordo com o combinado, fomos à cartomante da Rua Augusta. A gorda senhora, depois de receber 5 mil réis por cada consulta, disse o futuro de Lolita, prevendo que ela iria casar-se com o valete-de-ouros, um rapaz louro e bonito, o que, decididamente, não era o meu caso...
A seguir, a cartomante insistiu no meu futuro. Mandou que eu cortasse o baralho. Obedeci. E ela, então, pôs as cartas na mesa...
Vi logo as coisas complicadas para o meu lado, porque saiu, de cara, um four de damas. Era mulher demais para um antonense só! Depois, o coringa. Formou-se uma seqüência mínima. O ás-de-copas apareceu. A cartomante identificou-me:
– O rei-de-paus é o senhor.
– Muito obrigado.
Mas o rei-de-paus não apareceu. Insistiu dez vezes, e nada de minha figura surgir sobre a mesa. Por fim, muito abatida, a cartomante confessou:
– O senhor não tem futuro aqui, na terra, meu caro. Não consigo vê-lo nem no fim deste ano. Sua partida está muito próxima. Dentro de dias, o senhor será saudade.
Abraçou Lolita, que, àquela altura, já chorava:
– Meus pêsames.
– Obrigada.
Saímos abatidíssimos. Na primeira esquina, quase um carro me atropelou. À porta de casa, minha namorada argentina acabou nosso romance. Eu ia morrer, e, uma vez que aquele amor estava condenado, achou por bem antecipar-lhe o fim. Sai tonto. Quase caí do bonde. As palavras da cartomante não paravam de me soar aos ouvidos: “O rei-de-paus é o senhor”. O condutor do bonde aproximou-se e ouvi, claramente, quando disse:
– “O senhor não tem futuro aqui, na terra, meu caro”.
– O senhor tem trocado?
Queria que lhe pagasse em dinheiro miúdo. Não tinha troco. Entendi coisa bem diferente. Catei os níqueis na carteira e ele me agradeceu:
– “Não consigo vê-lo no fim deste ano”.
– Como?
– Não consigo juntar dinheiro miúdo.
Dissera algo nada parecido com o que eu imaginara. Eram as palavras da cartomante. O condutor notou alguma perturbação em mim. Perguntou:
– “Sua partida está muito próxima”.
– Como?
O barulho do bonde também me confundia. Não me deixava perceber suas palavras. Insistiu:
– “Dentro de poucos dias, o senhor será saudade”.
– Como?
Gritou:
– O senhor está pálido. Está trêmulo. Sente alguma dificuldade?
– Não, senhor. Obrigado. Estou bem.
– “Meus pêsames”.
– Como?
– Às ordens... Estou às ordens, digo. Se precisar de alguma ajuda, pode chamar-me.
– Muito obrigado.
No domingo, Lolita não me quis ver. Na segunda-feira, quando a procurei, deu-me o golpe de misericórdia:
– Já lhe disse adeus. Morra em paz.
Humilhado, corri a agência da Costeira. Comprei passagem. Na terça-feira, dia 4, às 17 horas, embarquei no Itaqüera. Durante a viagem, seria capaz de jurar que o navio iria a pique. Ao desembarcar em Maceió, onde não havia cais ainda, quase o saveiro me imprensou contra o navio. Momentos depois, um pé-de-vento ia virando a pequenina embarcação. Quando voltei ao navio, tive de recorrer ao médico de bordo, pois estava sofrendo de terrível indigestão provocada pelo sururu que eu comera em excesso, num restaurante da cidade.
Na Bahia, a cartomante já não atuava tão fortemente sobre meu pensamento. Mas, em várias ocasiões, lembrei-me de suas palavras. Uma dessas vezes foi no Elevador Lacerda. Tive a nítida impressão de que o ascensor para a cidade alta não chegaria ao fim da viagem “– Não consigo vê-lo no fim desta subida”. Dois outros passageiros falaram:
– É excelente este elevador! Não sei se conservam bem os cabos. Sem conservação, eles se partem.
– “Sua partida está muito próxima”, respondeu o outro.
Escapei do elevador. Nada me aconteceu na Bahia. Voltei ao Itaqüera. Novamente em alto-mar, lembrei-me da Princesa Mafalda, o navio que naufragara nos Abrolhos. Iríamos passar pelo mesmo ponto. Ganhei a certeza absoluta de que também não escaparíamos. “– Dentro de poucos dias, o senhor será saudade”.
Dentro de poucos dias, entretanto, cheguei ao Rio. Era 11 de fevereiro. Desembarquei, precisamente, no Armazém 13, o número do azar...
Continuei me safando. Logo depois, fui convocado para o Exército. Recebi ordem de voltar pelo Baependi. Consegui ficar no Rio. E o Baependi foi torpedeado...
Não obstante, estava certo de que morreria na guerra, e, para tanto, nem precisaria de seguir para a Itália. Aqui mesmo, o rei-de-paus seria metido num sobretudo também de pau e remetido para o Caju...
Faz isso 26 anos e meses. Durante algum tempo, ainda vivi sem acreditar que vivia. Agora, acredito. Pelo menos, desconfio...
Entretanto, pensando no caso, chego à conclusão de que a cartomante não errou uma palavra sequer de suas previsões. Eu e Lolita é que nos precipitamos. A senhora das cartas de jogar pôquer adivinhou tudo:
– “O senhor não tem futuro aqui, na terra, meu caro”. (Meu futuro deixou de ser na terra, no Recife. Vim para o Rio...) “Sua partida está muito próxima”. (Três dias depois, parti pelo Itaqüera...) “Não consigo vê-lo nem no fim deste ano”. (Não me viu mais, mesmo...) “Dentro de dias, o senhor será saudade”. (Tenho certeza de que virei saudade para Lolita...)
Deu pêsames à moça, mas pelo fim do nosso romance. Sem dúvida por isso...
E é pena, hoje, não poder escrever para Lolita, mostrando que a cartomante estava com toda razão. Porque – esqueci-me até de dizer – Lolita casou-se com o valete-de-ouros e morreu de parto...

(In Telhado de Vidro, volume I, BRADIL, 1967)

Itaquera ou Itaqüera (Foto: Clydeships.co.uk)