terça-feira, 7 de abril de 2015

LUÍS VIANA

Mensageiro fardado inumou, aporta de casa, o Luís Viana:
– O senhor deverá comparecer, amanhã, às 14 horas, para depor no IPM da Caixa Econômica.
– Sim, senhor.
Sem saber a que atribuir a intimação, pois jamais tivera qualquer espécie de negócio com aquela repartição, Luís Viana ficou apavorado. Sua esposa, cardíaca, teve de recorrer às pílulas.
No dia seguinte, Luís Viana chegou, à hora marcada, ao local indicado pelo mensageiro. Foi conduzido a uma sala na qual já se encontravam outros cavalheiros. De quando em vez, a porta se abria e novos senhores eram ali introduzidos. A sala já estava abarrotada. Mesmo assim, alguns dos detidos se puseram a conversar:
– Conheço o senhor não sei de onde.
– Meu nome é Luís Viana.
– O meu também.
Um terceiro:
– Que coincidência!  Também me chamo Luís Viana...
O cavalheiro gordo, de óculos, que se achava à janela, ouviu o próprio nome e atendeu:
– Os senhores me chamaram?
– Não. Por quê?
– Ouvi falarem em Luís Viana. Eu sou Luís Viana.
– Nós também o somos. Um gaiato gritou:
– Quem se chama Luís Viana, aqui na sala? Todos responderam a um só tempo, levantando o braço direito:
– Eeeeuuu!!!...
Tinham o mesmo nome os que se achavam à disposição do IPM da Caixa Econômica. Só não estava presente o filho do Conselheiro Luís Viana, bacharel em Direito, ocupante da Cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, biógrafo de Rui Barbosa e de Joaquim Nabuco, nascido em Paris mas considerado baiano. Chefe da Casa Civil da Presidência da República, este Luís Viana vivia muito ocupado, em Brasília...
Uns eram Luís com s; outros, com z. Uns, Viana com um n só; outros, com nn. Apenas se diferençava o louro, alto, que fumava cachimbo. Porque nascera em Paris, mas não se dizia baiano. Chamava-se Louis Vianney...
De repente, um dos oficiais encarregados de apurar irregularidades surgiu à porta e chamou:
– Luís Viana!
Todos atenderam:
– Preseeenteee!!!...
Já passava das 15 horas. Estavam aflitos. Tinham pressa em ser atendidos, principalmente para saber que diabo de idéia fora aquela de reunirem, numa sala, os Luís Viana encontrados pela cidade. O oficial ordenou:
– Quem se chamar Luís Viana entre em fila atrás de mim.
Obedeceram.
– Coluna por um, marche!
Marcharam.
Na sala contígua:
– Alto!
Pararam.
– Direita, volver!
Só um canhoto virou para a esquerda, mas se corrigiu a tempo...
Souberam, então, de que se tratava. Uma testemunha teria de identificar, entre os intimados, o Luís Viana que andara envolvido com negócios na Caixa Econômica. E, para descobrir o procurado, o encarregado do IPM mandou catar na lista telefônica todos os Luís Viana da cidade – isto é: os que possuíam telefone...
A testemunha examinou um por um. Não reconheceu, em qualquer deles, o implicado. Em conseqüência, os Luís Viana inocentes foram dispensados. Saíram em grupo. Na rua, abraçaram-se, felizes:
– Prazer em conhecê-lo. Luís Viana, às suas ordens.
– Também fico às suas ordens. Meu nome é Luís Viana.
O gaiato teve uma idéia:
– Que tal formarmos o Clube dos Luís Viana do Rio de Janeiro?
– Boa, aprovaram alguns.
O gordo, de óculos, foi, entretanto, mais ponderado:
– Tirem isso da cabeça. Vão chamar-nos de subversivos.
– É, concordaram.
Mesmo assim, o café da esquina da Avenida 13 de Maio com o Tabuleiro da Baiana viveu, naquela tarde, instante histórico: serviu, mais ou menos, vinte cafezinhos a vinte cidadãos chamados Luís Viana.
A esta altura dos acontecimentos, talvez até o próprio encarregado do IPM da Caixa Econômica queira saber como foi que o fato chegou ao meu conhecimento. Mas é fácil de responder.
Quem me contou tudo com detalhes foi o Luís Viana...

(Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

E O AMARELO?

Lembro-me do curso primário, no Grupo Amauri de Medeiros, no Recife. Cantávamos o Hino Nacional, o da Bandeira, o da Independência e o de Pernambuco, antes, durante e depois das aulas. E a professora repetia sempre:
– O Brasil é um país muito rico.
Com freqüência, mostrava os símbolos do Pavilhão Nacional que José Bonifácio desenhara:
– O amarelo representa o ouro do Brasil.
Nas lições de História, ouvíamos fatos espantosos sobre a cobiça dos piratas franceses e dos hereges flamengos, que fizeram incursões violentas em nosso chão, todos de olho na fabulosa fortuna do Brasil. E, não raro, a mestra citava igrejas construídas em Portugal com o ouro levado daqui, e aludia à escravidão dos índios e dos negros.
Quando um estudante sai do primário, penetra no ginasial, e, apesar de passar por um mundo de matérias que não interessam, chega à Faculdade. Então, os professores começam a ensinar, precisamente, o contrário:
– O Brasil é um país subdesenvolvido.
Os noticiários confirmam isso, com o tempo. Os governos se sucedem, alguns emitindo a torto e a direito, muitos a realizar empréstimos no estrangeiro. Ministros viajam, todos os dias, à cata de investidores. Chegam esmolas da Aliança Para o Progresso. Imposições do Fundo Monetário Internacional. Adquirimos concessionárias estrangeiras, e, depois, as entregamos aos antigos donos, para que estes continuem a explorá-las, a nos explorar. Contratos garantem que empresas norte-americanas não sofrerão, jamais, prejuízos aqui, pois nosso ouro cobrirá quaisquer danos, pelo acordo firmado pelo Embaixador Juraci Magalhães, embora as empresas brasileiras possam pedir concordatas e ir à falência. Surgem os pregoeiros que divulgam a péssima qualidade da indústria nacional, para que a financiada por outros países comande nossa produção e nosso mercado interno. O Sr. Otávio Gouvêa de Bulhões, que considerou crime de lesa-pátria a Lei de Remessa de Lucros, foi contemplado com o cargo de Ministro da Fazenda. E quem protestar não receberá o justo valor de patriota; será chamado de comunista, de subversivo...
Gostaria, agora, de reencontrar a professora do Grupo Escolar Amauri de Medeiros. Seria divertido ver sua cara, quando lhe perguntasse:
– Professora, que quer dizer mesmo o amarelo da bandeira?...

(Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967)


1° DE ABRIL

Abril (do latim aprilis, aperire, abril) começava o ano. Era o segundo mês de Rômulo. Os gregos o colocaram sob a proteção de Apolo, enquanto os romanos o consagraram a Vênus. Em fins do século XVI, abril deixou de abrir. Em 1564, Carlos IX, da Franca, filho de Catarina de Medicis, determinou que o ano se iniciasse a 19 de janeiro. Surgiu daí o hábito de se armarem pilhérias a 1º de abril...
Os franceses, que chamam a data de Poissons d’avril, passaram a enviar felicitações, presentes irrisórios e notícias falsas aos que se não conformavam com a inovação. E o 1º de abril, por isso, ficou dedicado à mentira...
Houve farsas que se tornaram célebres. Mistificadores ganharam fama, como Alphonse Aliais, Vivier e Monnier, o autor das Memórias de Joseph Prudhomme. E esse costume de mentir no 1º de abril veio parar no Brasil...
No começo da República, O Fígaro, jornal de Medeiros e Albuquerque, defendia acaloradamente o novo regime. A 19 de abril de 1890, quando mais fervilhavam os boatos de volta ao antigo sistema de governo, e quando mais os oposicionistas combatiam o Marechal Deodoro (o 1º marechal que ocupou a Presidência nossa de cada dia), aquela publicação estampou notícia pormenorizada sobre a restauração da Monarquia, com inúmeros comentários jocosos a propósito dos políticos do Império. Muita gente acreditou. E até um delegado de polícia de pequena cidade mineira, que aderira à República, hasteou a bandeira do antigo regime na fachada de sua casa. Ah, certos mineiros!...
Enfim, a 1º de abril de 1964, houve uma revolução para salvar o Brasil...

(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967)


domingo, 1 de março de 2015

ESTUDEM, MENINOS!

Digo aos meninos, todos os dias, que há uma técnica para tudo. Nada se faz de orelhada, garotos. É excelente, por exemplo, numa noite de lua em Paquetá, depois de a gente passar o dia à boca dos pesqueiros ferrando peixe, é excelente um violão pinicando o lá menor, na seresta, com um pouco de pinga para molhar a emoção. Sou freguês dessas noites. Mas beliscar violão em lá menor não é ser músico, meninos. Até eu sei fazer lá menor desde pequeno. Música é olhar o pentagrama e correr o braço do violão, como os dedos ágeis e dizer pra gente uma suíte de Bach, como a adorável nº 2, em si menor, em sete partes. Bach era o “Pai da Música”, meninos. Schumann disse, certa vez, que “a música deve a Bach tudo aquilo que uma religião deve ao seu fundador”. Querem ver por que tudo é a técnica, mesmo a arte – ou melhor: sobretudo a arte? Faz 215 anos que o “Pai da Música” morreu; no entanto, as dissonâncias, que hoje caracterizam tanto a música moderna são dele. Têm mais de dois séculos... Os russos foram buscá-las em Bach; os americanos foram buscá-las nos russos; e nós fomos buscá-las nos americanos, para que todos gostassem de nossa bossa-nova...
Não sou contra a coisa moderna, não, meninos. Pelo contrário, sou muito a favor. O bom, para mim, não tem idade; basta ser bom. Não acredito é no improviso, na orelhada, na falta de técnica, na ausência de estudo. E é isto que está dando tanta produção ruim, atualmente, em todos os setores.
Vocês pegam um adepto da música de ouvido, admiram-no, elevam-no ao chamado “estrelato”, pagam-lhe fortunas. Mas fico pensando: “- Que maravilha seria se este ás tivesse estudado!”
Ainda há dias, uma estação de televisão apresentou quatro pianistas ao mesmo tempo. Foi número agradável. Um deles, porém, não sabia música. Seguia, apenas, sua intuição. Qualquer pessoa, ao longe, mal ele se sentou no instrumento, viu que tocava de ouvido. Uma platéia culta – desculpem, meninos – não o aplaudiria. E se músicos no Brasil não precisassem tanto, porque são miseravelmente pagos, poderiam por em jogo o justo orgulho profissional e não aceitar aquela companhia...
Conto-lhes um fato, porque ele é motivo de orgulho da vida de Custódio Mesquita, meu saudoso amigo, grande compositor popular brasileiro, injustamente esquecido. Custódio escreveu peça para o Municipal, convidado pela esposa do presidente da República. Quando compareceu para reger a orquestra, os executantes se negaram a obedecer sua batuta, porque ele não tinha curso de regência...
Pois sabem o que ele fez – isto depois de ser compositor conhecido e aplaudido em todo o Brasil? Tirou o curso. Compareceu, tempos depois, ao Municipal, com o diploma de regente sob o braço. A orquestra o recebeu de pé, emocionada, a aplaudi-lo com entusiasmo. E Custódio Mesquita regeu a orquestra.
Isso tudo vem a propósito, meninos, dos que querem escrever, argumentando:
- Gramática é tolice. Ortografia é confusão. Ninguém liga mais para isso. Os grandes escritores não sabem gramática.
Têm de saber, meninos, ao menos o essencial. De fato, uma coisa é escrever bem e outra é escrever certo. Nem sempre os que escrevem certo escrevem bem. Mas é tão saudável ler quem escreve bem e certo!...
Vocês usam esse argumento, mas perguntam, de quando em vez:
- A distância leva acento de crase?
O companheiro responde:
- Não. Usa-se a crase, somente, quando a distância é determinada.
Todavia, não devia responder. Se vocês acham que “ninguém liga mais para isso”, por que perguntam? Por que não redigem como os colunistas sociais, para que outros corrijam suas matérias? Existe, no jornal, o copy-desk. É o corpo de redatores que refundem as matérias. Estes sabem se a distância leva crase. Deixem por conta deles...
No entanto, vocês perguntam. Se perguntam “ligam para isso”. Disfarçam, porque não sabem. Não sabem, porque não estudam. Estudem, meninos! Sei que é duro, mas evita humilhações. Ninguém quer puristas, donos de correções absolutas, nos jornais; quer, porém, que, amanhã, não mais a ignorância consagrada seja constante motivo de chacotas...
E que vocês não participem do imenso Festival da Besteira que invade o Brasil, como tão bem definiu a situação atual, em esplêndido achado, o cronista Stanislaw Ponte Preta. Porque a situação atual do Brasil é conseqüência da esplendorosa ignorância nacional...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1965)

domingo, 31 de março de 2013

LUTO

ESTA NÃO é a opinião de mais ninguém. É de um homem só. Assina e se responsabiliza pelo que diz. Se alguém não gostar do que vai dito aqui, em palavras pensadas num momento de revolta, o problema é desse alguém. O autor tem nome e endereço. É vacinado, maior de idade, reservista de 1ª categoria e penalmente responsável.

Feito esse esclarecimento, escrevo meu protesto, sentindo-me de luto, porque, lamentavelmente, é apenas isso que eu posso fazer Tenho aqui meu canto de página para dizer as coisas. E procuro dizê-las da maneira mais honesta e mais sincera que posso.

Hoje, de luto, quero dizer que não é possível ser estudante no Brasil. Estudante é a classe mais infeliz, mais perseguida. Não sei se ela sofre tanto quanto o operário favelado que recebe salário-mínimo em lei de arrocho. Talvez não seja tão perseguida e massacrada quanto o camponês nordestino entregue ao mais legítimo regime de escravidão, ignorado pela legislação trabalhista, espoliado nos mais comezinhos direitos de qualquer figura do gênero humano. Mas é quase isso.

Decididamente, no Brasil, não há o direito de estudar. Partir para os livros, para as universidades, é partir para o martírio. Não existem vagas. Poucos os que conseguem terminar o curso médio, clássico ou científico, e ingressar na Universidade. O comum é a espera de dois ou três anos, principalmente se o jovem quer ser médico, quando o Brasil figura entre os países que mais se ressentem da falta de médicos. Já estamos em 1968 e excedentes de 1966 esperam vez nas escolas, apelando para o Judiciário, usando a lei contra o Governo para poder estudar e servir ao Brasil...

Quando escapa e consegue ser universitário, o estudante é massacrado pela polícia, por essa polícia de capachos e repleta de corruptos que surgem, todos os dias, no noticiário, envolvidos nos mais deprimentes escândalos, como no caso do censor de Brasília, nomeado em 1964 para dirigir a cassetete a inteligência brasileira, mas que, na realidade, descobriu-se agora, não passava de um escroque.

Conclui-se, então, que bom, no Brasil, é ser banqueiro de bicho, porque nunca se viu um banqueiro de bicho preso, perseguido ou espancado. Bom é viver nas altas rodas das bajulações, em negociatas com as verbas do erário, porque ainda não se viu a polícia trucidar qualquer dos cavalheiros que jogaram com o dinheiro do País, locupletaram-se, exploraram o povo e ficaram ricos; pelo contrário, esses estão também no soçaite (E como gosto de chamar o “society” de “soçaite”!. . .) Bom é ser alcagüete e ganhar posição à custa do sacrifício dos denunciados. Bom é ser PM!

Desculpem não escrever mais. Estou de luto!

• Nestor de Holanda


(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 31 de março de 1968)

Obs.: Texto escrito em 28 de março de 1968, no dia do assassinato do estudante Edson Luís no restaurante Calabouço.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

GUEVARA MORREU?

A NOTÍCIA da semana, sem dúvida, foi a morte de Ernesto Guevara, médico, argentino, marxista, que largou a medicina e a Argentina para lutar pelo marxismo. O Governo da Bolívia garante que o cadáver é do lugar-tenente de Fidel Castro. O defunto já foi deixado em cova-rasa, sem qualquer marca na superfície. O presidente Barrientos teve pressa de esconder o falecido. Cuba diz que não pode afirmar nem negar. Os jornalistas presentes levantam suspeitas. A família Guevara, também. Editoras correm atrás do diário do guerrilheiro, querendo lançá-lo em livro, mas a Bolívia mostra apenas cópias datilografadas do diário. O homem tido como o maior agente da subversão no Ocidente é, desse modo, glorificado, imortalizado, e em torno dele se forma um mito que persistirá em todos os espíritos, um verdadeiro endeusamento criado pelos seus inimigos...

Ernesto "Che" Guevara
Afirma Barrientos: “– É Guevara”. Diz um jornalista: “– Guevara é muito mais alto e mais forte que esse defunto aí”. Outro jornalista: “– O líder tinha cabelos pretos e este é ruivo”. Insiste a Bolívia: “– É Guevara. Vimos as impressões digitais. Vimos sua cicatriz na mão. Verificamos a falta de um molar”. Diz o pai de Guevara: “–Não creio que seja meu filho”. E o Governo da Bolívia: “– É seu filho, sim. Quer saber mais do que eu?”...

O pai e o irmão do guerrilheiro tomaram, as pressas, uma condução qualquer e foram bater na Bolívia. Não reclamaram o cadáver nem demonstraram o menor interesse em fazer isso. Quando chegaram ao destino, Barrientos já havia proibido a trasladação para La Paz e autorizado o sepultamento...

O general Ovando Candia disse à imprensa que Ernesto Guevara, momentos antes de morrer, declarara: “– Sou o “Che” e fracassei”. Não teriam sido das mais notáveis suas últimas palavras, como se pode observar. Mas o coronel Zentena Anaya desmentiu o general, num perfeito desrespeito à ordem hierárquica. Afiançou que o superior mentiu. Guevara não falara antes de morrer. E parece que está com a razão, porque o defunto apresentava profundo ferimento na garganta...

Alguns outros guerrilheiros, segundo os correspondentes internacionais, informam que o chefe “Ramon” não era Guevara, mas Ramon mesmo. Então o Governo da Bolívia desmente isso e afirma que o fim do líder foi o fim também das guerrilhas na América do Sul, pois só há nove insurretos em suas matas. E o francês Debray informa – segundo o próprio Governo da Bolívia – que o falecido lhe dissera: “– Só existe um Fidel Castro, mas os “Che” são muitos”...

Os técnicos norte-americanos – não se sabe se legistas ou papa-defuntos – informam que o cadáver é de Guevara. Esses técnicos, como tem sido amplamente noticiado, são agentes da CIA (Central Intelligence Agency), a mais poderosa organização secreta dos Estados Unidos, espalhada pelo mundo inteiro, com maiores poderes que os do Presidente daquele País. Sobre essa imensa organização, lemos o livro de David Wise e Thomas B. Ross,The Invisible Government, lançado no Brasil em 1965, pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Jório Dauster Magalhães e Silva, sob o título de O Governo Invisível (As Forças Ocultas nos Estados Unidos). É obra esgotada. A CIA, constituída de várias organizações e pessoas misteriosas, entre os quais se incluem os serviços secretos do Exército, da Marinha e da Força Aérea, inumeráveis técnicos em criptografia, propaganda, agitação e espionagem, empresas privadas, grupos acadêmicos, estações de rádio e de TV, uma companhia de navegação marítima e uma editora de livros, despende bilhões de dólares anualmente e funciona no mundo inteiro, promovendo questões como as invasões de Cuba e da República Dominicana (a primeira fracassou na Baía de los Cochinos), assim como dezenas de revoluções e deposições de governos legalmente constituídos em diversos países. Pois bem, os agentes da CIA foram chamados para identificar o defunto de Vale Grande. O Governo da Bolívia, na situação agitada em que vive seu País, não deve ter tido trabalho para arregimentá-los. Acho que bastou um apito, porque, sem dúvida, eles estavam em todas as esquinas. E, assim, os técnicos norte-americanos, agentes da CIA, não se sabe se legistas ou papa-defuntos, afirmam que o guerrilheiro morreu mesmo.

O repórter Irineu Guimarães, correspondente da France-Press, que foi colega de seminário de Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento da Inflação, e que, durante a campanha eleitoral de Flexa Ribeiro, foi honrosamente xingado por Carlos Lacerda, acabou expulso por Barrientos, da Bolívia, porque noticiou qualquer coisa de transporte feito em caminhões norte-americanos, quando o Governo da Bolívia queria que ele falasse em caminhões cedidos pela Aliança Para o Progresso. Mas teve tempo ainda de ver o discutido defunto e de entrevistar os guerrilheiros presos. Um destes, o “El Gamba”, segundo Irineu, fez declarações “muito sob medida para a imprensa”. Dentre elas: “– Sim, Guevara estava conosco. Conheci-o uma noite e não pude evitar dizer-lhe que o havia reconhecido. Por única resposta, sorriu-me e não proferiu uma só palavra. Era o chefe do nosso grupo”. E acrescenta o repórter: “Os comunicados e reportagens publicados nas últimas semanas sobre um Guevara enfermo, que se arrastava penosamente em lombo de mula, provocaram, por outro lado, muitas reservas”.

Assim, uns afirmam que o homem se acabou. Outros dizem que o defunto deveria ser maior. O Governo da Bolívia não deixou a família identificar o morto. Há em tudo isso, portanto, um ponto importante, muito importante mesmo. Uma pergunta que corre de boca em boca, não somente na minha rua, onde o jornaleiro chama a atenção geral para as manchetes sobre o assunto, mas em todas as ruas, por todas as cidades e países e continentes. É uma pergunta só:

– Guevara morreu?

(In Telhado de Vidro. Publicado no Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1967)

domingo, 29 de abril de 2012

DR. AGOSTINHO

NÃO HÁ um antigo trabalhador de jornal – redator, repórter, revisor, gráfico – que não tenha ouvido falar em Agostinho da Cunha. Melhor dizendo: Dr. Agostinho, clínico geral, geral mesmo.

Era um médico pobre. Para estudar, foi revisor de jornal. Trabalhou aqui no DN. Viu de perto as dificuldades de vida de quem segue, honestamente, esta profissão de escrever, revisar, compor, paginar, sofrer. Acho que, apesar dos pesares, Agostinho – quero dizer: Dr. Agostinho – ficou agradecido ao jornal por ter conseguido ser doutor. E prometeu a si mesmo (acho que prometeu) socorrer, sempre que possível, e de graça, os que trabalham em jornal.

Dai seu prestígio em todas as redações, em todas as oficinas. Qualquer um de nós tinha o direito de ir a seu consultório, na Rua da Assembléia, levar mulher e filhos, mãe velha ou pai esclerosado. Não esperava. Passava à frente de outros clientes. E, além de não pagar as consultas, recebia amostras grátis.

Muitas vezes, no fim de ano, fui procurado por um linotipista, um paginador, um gráfico qualquer, para assinar a lista do presente que seria dado, pelo Natal, ao Dr. Agostinho. Era tudo o que ele recebia em troca da dedicação à classe.

Em todas as oficinas, havia sempre um pequenino anúncio do consultório do Dr. Agostinho Cunha. Ele jamais pediu publicidade a alguém, ou pensou nisso quando passou a socorrer nossa gente sempre carecida Mas os gráficos decidiram compor o anúncio. Quando o secretário era do meu tipo, permitia sempre que o pequenino anúncio completasse uma paginação qualquer. E não sei dizer o número de ocasiões em que, na oficina, à hora de fechar página, observei:

– Oh, diabo, o diagramador se enganou. Há um buraco aqui.

– Quer que entrelinhe?

– Não, porque fica feio – gritava eu para o paginador. Veja se cabe aí um “Agostinho”.

Era uma festa! O anúncio – claro – ia caber de qualquer jeito. Representava ele a única forma de o pessoal da oficina demonstrar, publicamente, sua gratidão a Dr. Agostinho.

Quando o secretário era daqueles capazes de tirar mamadeira da boca de criança, os gráficos não discutiam: cotizavam-se, iam ao departamento comerciai e pagavam a publicação do “Agostinho”.

Por tudo isso não há um antigo trabalhador de jornal que não tenha ficado a dever ao Dr. Agostinho um benefício qualquer. Ora, o filho livrou-se da coqueluche; ora, a filha se curou das cataporas; ora, o pai com reumatismo, a mãe com erisipela E todos têm sempre uma história para contar:

– Meu filho teve convulsão. Telefonei para o Dr. Agostinho e ele largou os clientes esperando no consultório e velo na mesma hora. Salvou meu filho. E nem ao menos me deixou pagar o táxi.

Outro:

– Quando o fígado me atacou, Dr Agostinho foi lá em casa, todos os dias, durante um mês. Só deixou de aparecer, depois que fiquei bom. Gastou um dinheirão, para me curar.

De minha parte, não tive a ventura de conhecer, pessoalmente, Dr. Agostinho da Cunha. Somente seu nome estava nos meus ouvidos. Por todas as oficinas e por todas as redações me falavam a seu respeito. Em qualquer estante de ficada havia um anúncio seu, em quadro amarrado, pronto para ser publicado a qualquer momento, com ou sem autorização do departamento comercial. Chamávamos o anúncio de “Agostinho”. Tinha grande utilidade: servia para fechar página, sem que houvesse necessidade de o paginador entrelinhar a matéria.

Não tive a ventura de conhecer, pessoalmente, Dr. Agostinho da Cunha, mas estou solidário com a dor de meus colegas, sobretudo dos gráficos, os que mais precisavam de sua proteção.

E que vi muitos deles, em lágrimas, distribuir os anúncios das estantes de ficadas, porque os “Agostinhos” não tem mais serventia.

ÁGUA-FURTADA

HOMERO Senna é dos bons escritores deste Brasil cheio deles, e, não raro, maus Mas é desses talentos que só comparecem quando são chamados, porque, em caso contrário, escondem-se, ensimesmam-se, entregam-se a um mundo pessoal e intransferível como convite de baile. Uma vez chamados, entretanto, mostram o que valem e nada ficam a dever a muitos dos que merecem, de fato, respeito e admiração. Recomendo, por isso, o livro que Homero Senna acaba de editar pela José Olímpio e que foi a razão de ninguém me encontrar no último fim-de-semana, apesar de o sol convidar para a praia. Fiquei em minha varandinha de pensar, a sombra, na espreguiçadeira cor de jerimum, agarrado a “Gilberto Amado e o Brasil”, cujo prefácio é de Odylo Costa, filho. Como se não bastasse minha admiração por esse gigante que é o personagem nascido na Rua do Rosário, em Estância, Sergipe, a 7 de mato de 1887, as vésperas da penúltima partida do Imperador para a Europa, encontraria eu motivos para não ir à praia em Homero Senna. E não perdi a praia; acho que lucrei mais. *E FAÇO aqui um agradecimento aos telhadistas amigos, pelo fato de este simples Iolando, filho legítimo de Vitória de Santo Antão, sobrinho do Xandu, do Cazuza e do Chico, vir figurando entre os autores mais lidos nas bibliotecas do Instituto Nacional do Livro. No último boletim, o nº. 11, o movimento acusou o Iolando em segundo lugar. Apesar de estar sem livros à venda no momento, pois os dois volumes de “Telhado de Vidro”, editados pela BRADIL, acham-se esgotados e vão sair, agora, em 2ª edição, atingindo o total de 40 mil exemplares, não resisto à imodéstia de fazer este agradecimento. E o faço, também, em nome dos colegas Callodi e Walt Disney, os dois outros mais lidos, no movimento de 1.020 volumes durante o mês de setembro.

(In Telhado de Vidro. Publicado no Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1968)