sexta-feira, 8 de abril de 2016

MORREU CHICÃO

Às vezes, mendigo. Outras vezes, delinqüentezinho. Vivia pelo Aterro da Glória. Tinha casa de campo no Parque Laje. Quando as coisas estavam mais difíceis, colhia papéis velhos para vender a peso, ou reunia plantas silvestres, para comerciar nas feiras-livres, anunciando que eram da flora medicinal. E muita gente acreditava que suas ervas quebravam pedras nos rins, curavam reumatismo, consertavam intestinos ou facilitavam a digestão...
Num dia qualquer daquele abril, no Aterro da Glória, Chicão encontrou algo que lhe pareceu conter valores: embrulho bem feito, de bom tamanho, atirado ao chão. Olhou para os lados: ninguém. Apanhou o embrulho. Afastou-se, a passos rápidos. Em outro local, abriu o “tesouro”: eram livros, novinhos em folha, certamente esquecidos por algum turista...
Chicão ficou feliz! Tirara a sorte grande! Nem um o no bolso, e, de repente, aquela “fortuna”! Dinheiro em caixa!
Numa rua de grande movimento, arrumou os livros no canto da calçada e se pôs a vendê-los, como qualquer camelô, embora não soubesse ler, ao menos, os títulos, para apregoá-los de modo mais comercial...
Passou, porém, a turma do DOPS. Para azar do Chicão, um dos policiais sabia ler. Viu obras de Marx, Engels, Lênin, Dobroliubov, Chernischévisque, Franco e outros. Algum apavorado, logo após a revolução, embrulhara os livros suspeitos, e, temendo a polícia, abandonara o pacote no Aterro da Glória.
O subversivo Chicão foi atirado no tintureiro, cercado de metralhadoras, trancafiado no xadrez, levado para a Ilha das Flores, acabou no presídio. Mas passou a sentir-se o homem mais feliz do mundo. Na prisão, tinha casa e comida. Não precisava de pedir nem de delinqüir. Os demais detidos se organizaram em “coletivo”. O que era de um era de todos. Chicão recebeu roupas, cigarros e até doces às sobremesas. Além de tudo, 200 cruzeiros por dia, dos companheiros, para fazer a faxina da cela.
Quando lhe perguntavam qual a melhor coisa desta vida, respondia sem vacilar:
– É ser preso político. E acrescentava:
– Quando houver outra revolução, vou vender livros novamente, mas na Rua da Relação, bem à porta da Polícia Central...
Contei a história de Chicão e fiz apelo ao Marechal Taurino de Resende Neto, para que não o libertasse. O então presidente da Comissão Geral de Investigações anunciara que iria soltar todos os presos sem culpa, guardados havia mais de 50 dias. Ainda por cima, pretendia processar as autoridades policiais que não obedecessem à sua determinação. Diante disso, também solicitei ao Marechal investigador que perdoasse o delegado Cecyl Borer, para que Chicão não voltasse à vida ingrata do Aterro da Glória ou do Parque Laje, porque, na prisão, ele estava mais feliz do que o delegado Borer aqui fora...
O Marechal não me atendeu. Cometeu a polícia mais uma atrocidade: soltou o Chicão, em julho de 64, no frio, num dia chuvoso. Pouco depois, ele foi encontrado morto, num recanto do Parque Laje, sua casa de campo. Dormindo, levara três tiros. Vestia pijama de flanela, doado pelos companheiros da prisão, e tinha no bolso 400 cruzeiros, resto do lucro obtido no trabalho de faxina.
A 15ª DD quis saber quem matou Chicão. Nada descobriu. Nem seu nome completo foi apurado. O cadáver, no necrotério, recebeu apenas um registro: Francisco de tal. As pessoas que o conheceram informaram que ele não possuía inimigos. Ninguém viu o crime. A polícia achou que um grupo de malfeitores atirara no Chicão, de farra.
E muitos leitores me telefonaram, dando pêsames.


(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967.
Originalmente publicada no Diário de Notícias)

quinta-feira, 31 de março de 2016

O BONÉ

Meu grande sonho era possuir um boné cinzento, de casimira, tal qual o do manequim da “Alfaiataria Londres”, na Rua Nova. Tinha de esperar, porém, que meu avô aparecesse pelo Recife. Esperei meses, mas deixei o manequim mais nu do que qualquer vedete de teatro de revista. Levei o boné de meu sonho e ainda mais a calça e o paletó pregueado nas costas, tudo muito à moda do inverno londrino, apesar do calor recifense em novembro...
Guardei o traje, carinhosamente, a fim de estreá-lo domingo, quando o Moderno iria exibir, na matinal, o filme brasileiro Cidade Mulher, com Bandeira Duarte, sob a direção de Humberto Mauro. E passei o resto da semana a visitar, duas ou três vezes por dia, meu uniforme londrino, no guarda-roupa, para ver se estava tudo em ordem.
No dia, madruguei, emocionado. Depois do banho, a fatiota. A seguir, o bonde de Campo Grande, a caminhada ao sol pela Rua do Sol, à margem esquerda do Capibaribe, e, às 9 horas, já estávamos (eu e meu boné) em pleno saguão do Moderno, na Praça Joaquim Nabuco, à espera de Bandeira Duarte, cuja aparição era marcada para as 10 horas. Eu morava no Beco das Almas (claro que por trás do Cemitério de Santo Almiro), lá no fim da Avenida Arquimedes de Oliveira, quase no cruzamento com João de Barro. E, quando passei, todos os vizinhos surgiram às janelas para ver meu boné – e tenho vaga idéia de que alguns até bateram palmas...
No saguão do Moderno, olhando os cartazes, vi anunciado Haroldo Trepa-Trepa, O Último dos Moicanos e outros filmes da época. Prometi a mim mesmo não mais perder as matinais seguintes, para voltar a usar sempre o boné cinzento, de casimira, muito londrino. E acho que até lamentei não haver fog no Recife...
Foi quando ouvimos, lá fora, umas pipocadas estranhas, e a multidão, espavorida, invadiu o cinema, a gritar que havia rebentado outra revolução. Já estava eu mais ou menos acostumado àquilo. Desde 1930, era a mesma coisa, quase todos os anos. Apesar disso, tratei de fugir, investindo contra a volumosa massa de apavorados, em direção à porta. A massa me arrancou o boné, rasgou meu paletó, mas não venceu meu medo. Consegui passar. Da Praça Joaquim Nabuco, emendei uma corrida só, ganhando, lá adiante, a Ponte Princesa Isabel, a avenida do mesmo nome, o Jardim 13 de Maio, Arquimedes de Oliveira, cemitério. Pulei para uma sepultura mais elevada, agarrei-me às asas da estátua de um anjo, galguei o muro, cheguei ao Beco das Almas. Na debandada louca, fui por cima de muitos soldados que se refestelavam em trincheiras, aprontando-se para defender as esquinas recifenses contra o olho de Moscou. E acabei sendo o único da família ferido na revolução, porque, em dado momento, tropecei num fuzil-metralhador Hotchkiss, caí, e me arranhei.
Fracassada a revolução, surgiu a ditadura de Getúlio Vargas. Os integralistas passaram a apoiar, com discursos e desfiles, os carrascos policiais que cometeram atrocidades maiores que as dos nazistas da Alemanha. Com ou sem culpa, pessoas ilustres foram presas pelos sicários de Filinto Strubling Müller, seviciadas e atiradas em calabouços infectos.
Homens de ciência, das letras, das artes, caíram em mãos dos tiras-assassinos chefiados, no Recife, por Emílio Romano. Para qualquer um ir bater na Casa da Detenção (transformada em Presídio Especial) ou na Ilha de Fernando de Noronha, bastava simples denúncia de desafeto. Pouco depois, o Comandante da Região tomou o Governo, enquanto o Governador eleito pelo povo foi mandado às favas. Na prisão, o hino oficial da alvorada era o maracatu É de Tororó, de Capiba e Ascenso Ferreira. O maior psiquiatra da terra cuspiu na cara do capitão Chefe de Polícia, de dentro da cela, através das grades. E a maioria dos bárbaros vive por aí, impune e fagueira, mandando sempre, e cada vez mais, na política.
Uma coisa, porém, me deixa indignado, e minha revolta aumenta todas as vezes em que encontro Bandeira Duarte, o astro de Cidade Mulher: é que, em novembro vindouro, vai fazer 28 anos de tudo que me aconteceu, naquele domingo, do Moderno ao Beco das Almas, inclusive o tropeção no Hotchkiss que me causou escoriações generalizadas.
E até hoje não sei de meu boné cinzento, de casimira, que era a última moda em Londres. ([1])

(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967. 
Originalmente publicada no Diário de Notícias)



[1] Nota do autor.
Esta crônica saiu publicada no dia 28 de abril de 1963. No dia imediato, fui convidado a comparecer ao Serviço Nacional do Cinema. Bandeira Duarte, que faleceu pouco depois, e Humberto Mauro prestaram-me significativa homenagem, com discursos. E me devolveram boné exatamente igual ao que havia sido perdido, fazia 28 anos. Guardo o boné com o mesmo carinho com que guardaria um troféu de herói, ganho na revolução que me feriu... – N. de H.


segunda-feira, 28 de março de 2016

“GAÚCHO”

Não me lembro bem para que jornal trabalhava. Tinha saído, havia pouco, das calças curtas. Havia pouco, também, que deixara de ser aprendiz de suplente de revisor, com as seguidas promoções para suplente, revisor, e, então, repórter. “Diário da Manhã”? “Jornal Pequeno”? “A Cidade”? Lembro-me, não.
Um navio, no cais, conduzia de volta à Capital, o presidente da República. Era, na época, Getúlio Vargas. Deram-me a incumbência de ir a bordo, ouvir s. exa., ficar por perto, registrar os nomes de pessoas ilustres que se aproximassem do chefe da Nação, enfim, fazer a cobertura jornalística da passagem do presidente pelo Recife.
Fiz o que me mandaram. Sempre fui bem mandado.
Getúlio Vargas, no tombadilho, charuto, amigos, risos, pedidos, multidão no cais a saudá-lo. Eu, reporterzinho, por perto, de papel e lápis à mão, anotando tudo. De quando em vez, o espocar, o relâmpago e o fumaceiro do magnésio das antigas máquinas fotográficas.
A certa altura, o presidente divisou, lá em terra, no meio da multidão, com seu enorme chapéu, o Ascenso Ferreira, nosso querido poeta de Palmares. Devo informar não ser isto tarefa difícil. Ascenso é de muitas arrobas, volumosíssimo, figura de grande calado, desloca excesso de arráteis. Estando no meio da multidão, esta lhe bate pouco acima da cintura.
E Getúlio:
- Aquele não é o poeta?
- Sim, informaram. É o Ascenso.
- O autor do poema “Gaúcho”?
- Ele mesmo.
O presidente riu e determinou:
- Mandem chamá-lo até aqui.
Correram os mensageiros. Ascenso veio. Subiu as escadas de bordo. Cumprimentou o chefe do Governo. Aceitou o convite para sentar-se a seu lado. E Getúlio:
- Poeta, o senhor sabe de cor o seu poema “Gaúcho”?
- Sim, excelência.
- Pode declamá-lo?
Ascenso não se fez de rogado. E foi assim que ouvi, pela primeira vez, declamado pelo próprio autor, o poema “Gaúcho”:
“Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das cochilhas!
Saí de meus pagos em louca arrancada!
- Para quê?
- Pra nada!”
Ascenso Ferreira

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 de abril de 1964)

terça-feira, 22 de março de 2016

REVOLUÇÃO

Nos agitados dias de outubro de 1930, o sargento municiou os fuzis do Tiro de Guerra e entregou a seus comandados. João Olímpio abriu a loja e distribuiu uma peça de pano vermelho, para o pessoal patriota amarrar no pescoço, e aproveitar as tiras como enfeite no cano de cada arma. As espingardas de madeira, do ginásio, também foram distribuídas aos voluntários como tática militar – isto é: para fazer número e apavorar o inimigo. Mestre Amadeu, da Banda 15 de Novembro, emprestou dois pistons, o bombo, a caixa e o taró (pois é assim que chamamos o tarol), e foi montada a banda marcial.
Os guerreiros desfilaram sob os aplausos da população, pela Rua do Comércio, e, depois, o sargento pediu ao povo que se recolhesse e às lojas que cerrassem as portas, porque iria tomar a delegacia. Mas todo mundo quis ver a batalha e ninguém atendeu a sua intimação...
Foram ocupados os pontos estratégicos da cidade: a torre da Matriz, a estátua do Anjo, no Pátio dos Currais, o Alto do Galucho e o Trepa-Bode (passagem de pedestres sobre a estrada de ferro). O sargento agarrou um voluntário para levar seu ultimato ao delegado:
- A delegacia ou a vida.
O emissário amarrou lenço branco num cabo de vassoura e seguiu para o Barateiro, acompanhado por verdadeira multidão de curiosos que desejavam saber qual a reação da autoridade. Na delegacia, a sentinela-avançada viu o atirador com o lenço e avisou:
- Seu cabo, essa história de invadir o xadrez é boato. Um guerreiro do sargento vem aí com o lenço branco.
O cabo verificou a veracidade da informação, avisou o delegado, e, em poucos minutos, todo o destacamento correu em direção ao emissário, desarmado, a gritar vivas à revolução.
Então, Amadeu convocou a banda e houve novo desfile, dessa vez com os praças da Brigada também usando panos vermelhos, porque estes simbolizavam o movimento liberal.
Quando a parada chegou à estação, o comandante fez discurso, informando que não ia parar a luta, apesar da adesão dos irmãos “brigadeiros” (os soldados da Brigada). Mas, não havia propriamente, contra quem brigar. E, diante disso, alguém lembrou que a Prefeitura devia ser tomada.
Seguiu a tropa em formação de combate, para a Prefeitura, com o pessoal atrás, querendo ver a batalha. Cercando o prédio, novo ultimato. Bateram à porta, ninguém respondeu. O comando já ia determinar o arrombamento, quando o prefeito surgiu por trás dos guerreiros, com o lenço vermelho ao pescoço, saindo do meio da multidão e perguntando se os meninos não tinham mais o que fazer...
Houve certo mal-estar, não resta dúvida. Um exaltado ainda insistiu:
- É preciso limpar a Prefeitura.
Mas o chefe da Municipalidade rebateu à altura:
- Zé das Cebolas já limpou o prédio hoje. É ele quem faz a faxina. Ganha um cruzado por dia e pago do meu bolso, porque não há verba para no orçamento municipal.
De qualquer maneira, a alegria foi geral. A guerra estava ganha. O povo carregou os combatentes. No Campo da Bica, realizou-se festiva partida de futebol entre o pessoal do Tiro e o pessoal do ginásio. Ganhou o primeiro, por dois a um, com os tentos marcados pelo sargento. À tarde, Amadeu botou a banda para tocar valsas vienenses e brasileiras, assim como alguns tangos, e isso acabou em retreta na Praça do Leão Coroado. À noite, o Esporte Clube fez baile, até o dia seguinte, durante o qual as senhoras da sociedade entregaram uma medalha de Santa Terezinha do Menino Jesus ao sargento.
Era eu um menino que ia completar nove anos. Lembro-me, porém, de tudo. Foram horas gloriosas. E, nestes dias agitados, durante os quais tanto se falou em revolução, recordo-me daqueles instantes de emoção por mim presenciados, na Terra das Tabocas.
Porque, quando Juarez ganhou a briga no Recife, Vitória de Santo Antão já estava até mandando desamarrar os voluntários...


(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 17 de abril de 1964)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

FAMÍLIA

Algum autor, imaginoso e ignorado, já criou estória semelhante, publicada em vários almanaques de propaganda de produtos farmacêuticos. Mas a verdade é que este caso aconteceu, no Rio, tal qual for idealizado. E os personagens são, por conseguinte, da vida real.
Dona Maria José Matos, de 39 anos, residente na Rua Mário Carpenter, 194, no Engenho de Dentro, casou-se, de livre arbítrio, sem incomodar padre nem juiz, com Benedito Pedro Faria, que reside, agora, na Rua Oliveira de Andrade, 195, naquele mesmo subúrbio da Central. Embora 17 anos mais velho que ela, Benedito – ou Bené, como é mais conhecido – viveu 18 janeiros com dona Maria. Depois, deu no pé. E a mulher ficou com seis filhos ao desamparo.
Quando se uniram, Bené estava viúvo e tinha dois rebentos da primeira esposa. Um deles era o Benezinho – Benedito Faria Filho, de 28 anos. Ao ver a madrasta abandonada e os irmãos passando necessidade, Benezinho, que sempre desejou constituir um lar e ter mulher, não vacilou em ser rival do próprio pai...
Casou-se com a madrasta.
Passou a ser padrasto dos irmãos, enteado e marido de dona Maria, enquanto esta, madrasta e esposa de Benezinho, virou nora e ex-mulher do velho Bené, além de cunhada do outro enteado.
Uma vez casada com o irmão de seus seis filhos, ela transformou os meninos em cunhadinhos muito queridos, e, por sua vez, o velho Bené, tendo o filho como padrasto dos seis pimpolhos, tomou posição um tanto extravagante de avô dos próprios filhos. E sua ex-mulher, automaticamente, passou também a ser avó dos pequenos.
Os garotos não sabem se chamam o padrasto de maninho ou de papai. Ignoram se devem chamar o velho Bené de papai ou de vovô. Também ficam em dúvida diante de dona Maria: mamãe, cunhada ou vovó? E o irmão do padrasto é titio ou mano?
Benezinho acha-se doente, sem poder sustentar a família da Rua Mário Carpenter. O velho Bené, que é rico, deverá comparecer com uma mesada, para que não morram de fome a ex-mulher e nora, madrasta e esposa de seu filho mais velho, nem o próprio filho e rival, segundo marido de sua antiga companheira. E, ainda, para que não passem privações seus filhos-netos, enteados e irmãos de seu principal herdeiro, irmãos e sobrinhos de seu segundo herdeiro, além de filhos, cunhados e netos de sua ex-mulher e nora.
Como se não bastasse, vem mais um por aí.
Dona Maria, que apesar de tudo, é feliz com Benezinho, receberá a visita da cegonha, o que era de se esperar, pois, como ficou dito, o nome do marido é Faria Filho, e, por conseguinte, a cegonha teria de comparecer...
O novo membro da família será neto do velho Bené, porque nasceu de seu filho, e, ao mesmo tempo, enteado, porque nasceu de sua ex-cara-metade. Os filhos do velho são igualmente, seus netos. Como os irmãos de Benezinho são netos do Bené, claro que o Benezinho também tem o direito de chamar o pai de vovô. E, em conseqüência, um filho do neto do velho sairá seu bisneto.
Na situação de sobrinho da meia-dúzia de irmãos do pai, o menino ganhará, da mesma forma, o parentesco de irmão dos seis tios, pois todos são filhos da mesma mãe. E, sendo irmão dos irmãos de Benezinho, o filho deste será seu irmão também, e, nesta qualidade, passará, ao mesmo tempo, a tio dos seis enteados do marido de dona Maria.
Claro que a mulher se sentirá muito contente de ganhar seu sétimo filho, irmão de seu esposo, neto e bisneto de seu ex-companheiro. Funcionará com extremada mãe e cunhada do caçula, assim como avó dedicada (porque ele será neto de seu ex-marido), e, do mesmo jeito, carinhosa bisavó do próprio filho.
Tendo passado a padrasto dos irmãos, Benezinho não conseguiu fugir a um fim estranho: é o marido da mãe de seus irmãos. Nesta condição, assumiu a paternidade deles. Ficou, então, como neto do próprio pai, porque os meninos são netos do Bené. Desta arte, seus filhos viraram seus irmãos.
E ele acabou pai de si mesmo...

 (in Telhado de Vidro – Volume I. Bradil, Rio de Janeiro, 1967. Publicado originalmente com o título Família Feliz; in “Telhado de Vidro”; Diário de Notícias,  30/07/1963)

sábado, 20 de junho de 2015

MANCHETE

        Um jornal do Rio publicou, não ha muito, na manchete, a locução adverbial "à beça", com cê-cedilha, como manda o figurino. O diretor foi à redação, reclamar do redator-chefe:
—        O senhor viu a manchete?
—        Vi.
—        Quem é o responsável?
O redator-chefe chamou o editor:
—        O senhor viu?
—        Vi.
—        Quem é o responsável?
O editor chamou o secretário:
—        Viu?
—        Vi.
—        Quem é?
O secretário chamou o chefe do "copy-desk":
—        Viu?
—        Vi.
—        Quem?
O chefe do "copy-desk" chamou um sofredor de sua seção:
—        Quem?
O reescrevedor chamou o repórter:
—        Passei a notícia pelo telefone.
Assim, voltou, do reescrevedor para o chefe do "copy-desk", deste para o secretário, para o editor, para o redator-chefe e para o diretor, a informação de que ninguém na redação era responsável. Em consequência, chamaram o chefe da revisão.   E o diretor foi severo:
—        O senhor viu "beça", com cê-cedilha, na manchete?
—        Vi, sim, senhor. Vi em cima da hora. Se não chego a tempo, saía com dois esses.. .
O diretor perdeu o rebolado. Esperava tudo, menos aquela informação de que os dois esses esta-riam errados. Mas não perdeu a dignidade de diretor:
—        Espero que isso não se repita.
—        Isso o quê?
—        O senhor ser forçado a trocar letras em cima da hora.
—        Sim, senhor.
Afastou-se o diretor, pisando forte. O chefe da revisão voltou ofendido e bradou, zangado, para os subalternos:
—        Por causa de "bessa" com "ss", o diretor me espinafrou à beça. Espero que isso não se repita.

(in A Ignorância ao Alcance de Todos
Editora Letras e Artes, 6.ª edição, Rio de Janeiro, 1965)

terça-feira, 7 de abril de 2015

LUÍS VIANA

Mensageiro fardado inumou, aporta de casa, o Luís Viana:
– O senhor deverá comparecer, amanhã, às 14 horas, para depor no IPM da Caixa Econômica.
– Sim, senhor.
Sem saber a que atribuir a intimação, pois jamais tivera qualquer espécie de negócio com aquela repartição, Luís Viana ficou apavorado. Sua esposa, cardíaca, teve de recorrer às pílulas.
No dia seguinte, Luís Viana chegou, à hora marcada, ao local indicado pelo mensageiro. Foi conduzido a uma sala na qual já se encontravam outros cavalheiros. De quando em vez, a porta se abria e novos senhores eram ali introduzidos. A sala já estava abarrotada. Mesmo assim, alguns dos detidos se puseram a conversar:
– Conheço o senhor não sei de onde.
– Meu nome é Luís Viana.
– O meu também.
Um terceiro:
– Que coincidência!  Também me chamo Luís Viana...
O cavalheiro gordo, de óculos, que se achava à janela, ouviu o próprio nome e atendeu:
– Os senhores me chamaram?
– Não. Por quê?
– Ouvi falarem em Luís Viana. Eu sou Luís Viana.
– Nós também o somos. Um gaiato gritou:
– Quem se chama Luís Viana, aqui na sala? Todos responderam a um só tempo, levantando o braço direito:
– Eeeeuuu!!!...
Tinham o mesmo nome os que se achavam à disposição do IPM da Caixa Econômica. Só não estava presente o filho do Conselheiro Luís Viana, bacharel em Direito, ocupante da Cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, biógrafo de Rui Barbosa e de Joaquim Nabuco, nascido em Paris mas considerado baiano. Chefe da Casa Civil da Presidência da República, este Luís Viana vivia muito ocupado, em Brasília...
Uns eram Luís com s; outros, com z. Uns, Viana com um n só; outros, com nn. Apenas se diferençava o louro, alto, que fumava cachimbo. Porque nascera em Paris, mas não se dizia baiano. Chamava-se Louis Vianney...
De repente, um dos oficiais encarregados de apurar irregularidades surgiu à porta e chamou:
– Luís Viana!
Todos atenderam:
– Preseeenteee!!!...
Já passava das 15 horas. Estavam aflitos. Tinham pressa em ser atendidos, principalmente para saber que diabo de idéia fora aquela de reunirem, numa sala, os Luís Viana encontrados pela cidade. O oficial ordenou:
– Quem se chamar Luís Viana entre em fila atrás de mim.
Obedeceram.
– Coluna por um, marche!
Marcharam.
Na sala contígua:
– Alto!
Pararam.
– Direita, volver!
Só um canhoto virou para a esquerda, mas se corrigiu a tempo...
Souberam, então, de que se tratava. Uma testemunha teria de identificar, entre os intimados, o Luís Viana que andara envolvido com negócios na Caixa Econômica. E, para descobrir o procurado, o encarregado do IPM mandou catar na lista telefônica todos os Luís Viana da cidade – isto é: os que possuíam telefone...
A testemunha examinou um por um. Não reconheceu, em qualquer deles, o implicado. Em conseqüência, os Luís Viana inocentes foram dispensados. Saíram em grupo. Na rua, abraçaram-se, felizes:
– Prazer em conhecê-lo. Luís Viana, às suas ordens.
– Também fico às suas ordens. Meu nome é Luís Viana.
O gaiato teve uma idéia:
– Que tal formarmos o Clube dos Luís Viana do Rio de Janeiro?
– Boa, aprovaram alguns.
O gordo, de óculos, foi, entretanto, mais ponderado:
– Tirem isso da cabeça. Vão chamar-nos de subversivos.
– É, concordaram.
Mesmo assim, o café da esquina da Avenida 13 de Maio com o Tabuleiro da Baiana viveu, naquela tarde, instante histórico: serviu, mais ou menos, vinte cafezinhos a vinte cidadãos chamados Luís Viana.
A esta altura dos acontecimentos, talvez até o próprio encarregado do IPM da Caixa Econômica queira saber como foi que o fato chegou ao meu conhecimento. Mas é fácil de responder.
Quem me contou tudo com detalhes foi o Luís Viana...

(Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967)