segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

AMIGOS

ENEIDA me diz que amigo é aquele que avisa quando a gente está com mau hálito. De minha parte, embora aceite essa definição, tenho outra: amigo é o que perdoa os defeitos da gente. Quem não perdoa defeitos é inimigo...
Xandu, latinista primeiro e último de Vitória de Santo Antão, dizia sempre:
Amicus certus in re incerta cérnitur.
Dizia e provava:
– “O amigo verdadeiro se conhece na ocasião incerta.”
Amigo é o que vai consultar-se com o outro, quando o outro é médico, e paga a consulta. É o que constitui o advogado e paga os honorários. É o que apanha algum dinheiro emprestado e paga. É o que vai à livraria, compra o livro da gente e traz (ou não traz) o volume, pedindo:
– Pode me dar seu autógrafo?
Porque o médico vive das consultas O advogado das causas. Quem faz livro talvez seja porque não saiba dar consultas ou advogar; talvez seja porque não saiba fazer mais nada. Em conseqüência, mantém-se graças aos livros. Em outras palavras: é o abnegado que tem a coragem de viver de livros num país em que se ler tão pouco...
Mas nem todos os amigos entendem isso. E o médico ao qual o sujeito que escreve paga consultas exige:
– Estou esperando que você me dê o seu livro.
Também o advogado que cobra honorários:
– Quando é que você vai me oferecer seu último livro?
Há três maneiras bem usuais de pedirem os volumes que escrevemos para viver. Uma delas é a pergunta:
– Onde está à venda seu livro?
Respondo sempre:
– Em qualquer açougue ou padaria...
Outra:
– Estou louco para ler seu último trabalho.
E a terceira:
– Se eu comprar seu livro, você o autografa?
Nenhum dos que pedem se lembra de que as editoras organizadas cumprem seu contrato com o autor. Pagam os direitos autorais e lhe dão vinte volumes. O autor assina os exemplares que vão para os críticos e noticiaristas, e, depois disso, qualquer outro que deseje será abatido em sua conta. Imaginai, pois, este filho humilde de Vitória de Santo Antão a distribuir qualquer edição inicial de cinco mil exemplares com os amigos que perguntam:
– Onde está à venda seu livro?
Ou:
– Estou louco para ler seu último trabalho.
Ou, ainda:
– Se eu comprar seu livro, você o autografa?
Terá de pagar três ou quatro edições ao editor. E ainda deixará os verdadeiros amigos, aqueles que dizem quando a gente está com mau hálito, aqueles que perdoam os defeitos da gente – e ainda deixará os verdadeiros amigos sem encontrar os livros para comprar.

TELHAS-VÃS

·      POEMAS – Os amigos de Santos Morais devem comprar seus Poemas do Hóspede. É o poeta de A Nuvem de Fogo e Tempo e Espuma. O romancista de Menino João e Os Filhos do Asfalto. O contista de O Caçador de Borboleta. O teatrólogo de Rei Zumbi e A Terra Sangra. O ensaísta de Dois Cientistas (Rocha Lima e Gaspar Viana). Antônio Santos Morais, baiano de Casa Nova, é detentor de vários prêmios: o de romance do Instituto Nacional do Livro, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras e o de teatro também da Academia Insisto: seus amigos devem comprar Poemas do Hóspede, coletânea recém-saída pela Editora Luan.

·      CRÔNICAS – A Editora Sabiá acaba de lançar a 4ª edição de A Borboleta Amarela e a 5ª edição de Ai de ti, Copacabana!, dois volumes de crônicas de Rubem Braga. Chegam-me os exemplares com o amabilíssimo cartão do Braga: “Você já deve ter esses livros, por isso mando só autografados e você poderá dar a alguém de presente de Natal”. Passou o Natal e não dei os livros do Braga a ninguém. Não tiro de seus amigos o direito e a alegria de comprá-los. Não digo que Rubem Braga é o nosso maior cronista, porque odeio essa coisa de “o melhor” ou e “o maior”. Digo, todavia, sem medo de errar, que qualquer cronista tem de rebolar muito para equiparar-se ao Braga. Logo, comprar seus livros não é favor; é uma obrigação até dos que, porventura, não sejam seus amigos... (E outra coisa, meu Braga: fui às livrarias, comprei livros seus e os dei de presente, pelo Natal, porque, no Natal, não dou gravatas de borboletas nem vidrinhos de perfume; dou bons livros!)

ÁGUA-FURTADA

POR FALAR em bons livros e na editora Sabiá, Fernando Sabino, outro cronista que não deve ser classificado como “o melhor” ou “o maior”, porque isso é propaganda de gasolina, lança a 5ª edição da Medo em Nova Iorque – a Cidade Vazia. Isso mostra que seus amigos compraram seus livros, no que fizeram muito bem. E mostra que outros amigos devem fazer o mesmo antes que a 5ª se esgote e tenham de esperar pela 6ª, o que acontecerá, fatalmente. E GABRIEL Garcia Marquez, como sabeis, é o autor de Cem Anos de Solidão, dos melhores romances saídos, nos últimos anos, em todo o mundo. E, agora, a Sabiá lança a novela Ninguém Escreve ao Coronel, do notável colombiano. Tradução de Virgínia Wey. Capa e desenhos de Carybé.

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1970)

Alex Viany, Eneida e Nestor de Holanda (Rio de Janeiro, 1961)
(Obs.: Foto tirada durante o Programa de Haroldo Costa na TV-Continental)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

VARANDINHA DE PENSAR

         MINHA DESARRUMADA sala de escrever e de ler tem varandinha. O apartamento é de fundos. De quando em quando vou à varandinha. Penso. Respiro. Volto à máquina ou ao livro. E concluo que a varandinha é tudo o que me resta para pensar e respirar livremente.
Sou homem perigoso. Nenhum Mineirinho ou Zé da Ilha, Sete Dedos ou o Vampiro da Avenida Brasil, Lampião ou Antônio Silvino, nem Barba Azul, Poulailler, Fra-Diavolo, Al Capone, Jack, o Extirpador, Sawney Bean, Joseph Albert Guay, Jimmie Nannery, Maurice Rousson, nenhum deles, até hoje, cometeu maiores atrocidades que eu, ou foi mais perigoso às instituições.
Sou jornalista de alta periculosidade.
Conto o que sei e o que vejo, porque sinto a volúpia de informar. É vicio que tenho, este de noticiar com segurança, de dizer a verdade. Então, um Poulailler, que cometeu mais de setecentos crimes, não chega a meus pés. Sou pior. Setecentas vezes pior. Matar, massacrar, espancar, dar choques elétricos, usar pau-de-arara, maçarico, cassetete, sabre, pata de cavalo, matar jovem indefeso de 18 anos – nada disso tem a gravidade do crime de informar. Este tipo de criminoso sofre reprimendas terríveis:
– O senhor noticiou que mandamos tosquiar estudantes e que os mantivemos detidos sob sevícias.
– Foi a verdade. É meu dever.
– Mas sua notícia é alarmista. Cria pânico na população. O senhor está tentando incompatibilizar o Governo com o povo.
– Juro pelas barbas de Santo Antão como jamais pensei nisso.
– O senhor pode jurar, mas cometeu abusos no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação.
– Desculpe, mas meu fotógrafo está machucado. Meu repórter ficou hospitalizado, com suspeita de fratura do crânio. Eu, apenas, publiquei as fotos de jornalistas, estudantes e povo apanhando. É meu dever. Não estou fazendo campanha contra ninguém, não quero incompatibilizar ninguém, não sou alarmista nem penso, jamais pensei, em subverter a ordem pública. Muito pelo contrário, adoro a ordem, a disciplina, o respeito às leis.
– Comunista!
Já escrevi, certa vez, que não é possível pegar um elefante enfurecido e convencê-lo de que pertencemos à Sociedade Protetora dos Elefantes...
Tenho de refrear, então, meus instintos bestiais, monstruosos, lombrosianos, de informar. Não devo escrever sobre tudo o que sei, sobre tudo o que vejo – e pouca gente sabe que não escrevo tudo o que vejo nem tudo o que sei...
Então, adoro minha varandinha de pensar. Teoricamente, tenho à minha disposição uma área de 8.513.841 quilômetros quadrados, mas acabo de descobrir que tanto espaço me asfixia. Só consigo mesmo pensar e respirar livremente na varandinha de um metro por três. É minha jaula aberta. Onde não sou perigoso. Doravante, darei notícias aos senhores sobre ela. Não cometerei o crime de informar sobre tudo; cometerei, apenas, as insignificantes contravenções de dar notícias sobre minha varandinha de pensar.
Contando a história da vizinha que muda de roupa com a janela aberta, não creio que cometa abuso no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação...

TELHAS-VÃS

·      JOEL SILVEIRA – Meu irmão Joel – irmão pelo afeto – também é pior que Jack, o Extirpador. Sim, porque figura entre os jornalistas que não têm medo de enfarte nem estão interessados em convencer ao ilustre membro da família dos Proboscídeos de que pertence à Sociedade Protetora dos Elefantes. Assim, Joel Silveira é um monstro, um Jack, perigoso para as instituições. Não sabe mentir aos seus leitores, não sabe escrever o que os outros pensam, não faz da profissão escada para altas posições, chega pobre como o Iolando ao fim de uma carreira exercida com amor e abnegação. Pode ser comparado pelos orientadores da inteligência nacional a um criminoso da importância de Henri-Desired Landru, aquele conquistador-assassino de numerosas noivas. Também vai ficar na história como perigoso. Agora mesmo, acaba de cometer crime que é fichinha junto de um latrocínio em dois velhos: publicou pela Biblioteca Universal Popular o livro “Um Guarda-Chuva Para o Coronel”, no qual analisa a política nacional, com o talento e o estilo leve que os leitores conhecem. “Valerá a pena tanto esforço diante da mediocridade e insignificância de nossas elites dirigentes?”, pergunta Paulo Francis, na apresentação do livro. Respondo eu: – “Acho que não. O melhor é Joel arranjar uma varandinha de pensar. Não ofereço a minha porque é pequenina. Não cabem duas lacraias. Também não sei se será fácil encontrar, no momento, outro recanto em que se possa pensar e respirar tão livremente. Mas quem sabe se a sorte ajudará o excelente e talentoso companheiro para ele conseguir outra varandinha, de apenas um metro por três, em 8.513.844 quilômetros quadrados? Pensar e respirar não fazem barulho. Não incomodam os vizinhos. Ninguém sabe que estamos respirando e pensando. É bom que é danado. Arranje outra varandinha, Joel”.
·      HÉLIO SODRÉ – Juiz e escritor. Veio à redação. Matou as saudades de seu tempo de jornal. “Escola de vida”, exclamou. Visitou o Iolando e trouxe ao pacato antonense os três volumes, de sua valiosa “História Universal da Eloqüência”, lançada pela Livraria Forense. É a ação dos grandes oradores, através de todos os tempos. No primeiro volume, fala da antiguidade clássica e do renascimento; no segundo, sobre os povos modernos; e no terceiro sobre os brasileiros. Trabalho que não pode faltar às boas estantes. Estou com ele aqui na varandinha de pensar, ao lado da espreguiçadeira. Sodré também é companheiro de hoje. Nem tudo está perdido.

ÁGUA-FURTADA

“A DOUTRINA Social da Igreja”, de Henry George e Leão XIII, é livro indispensável à compreensão do pensamento católico sobre as duas questões que, atualmente, agitam os povos e revolucionam o mundo: a terra e o trabalho. Pelo menos é o que informa a Gráfica Editora Laemmert. Ao ver isso, desisto de levar o volume para a minha varandinha de pensar. Nasci de família católica, fui batizado e crismado, fiz a Primeira Comunhão, tenho cá minhas simpatias por Santo Onofre e por São Benedito, padre Pita quis que eu fosse coroinha na Matriz de Vitória de Santo Antão, assisti às aulas de catecismo do coadjutor, mas não quero ser tido como subversivo, imbuído da doutrina social da igreja, sobretudo quando esta focaliza o trabalho e a terra. Não me adianta ficar na mesma célula de Dom Hélder ou na de Dom José de Castro Pinto. Já disse que na varandinha deste escritório desarrumado a espreguiçadeira é apenas para que eu possa pensar e respirar livremente. Qualquer dia haverá quem passe a considerar a missa uma concentração perigosa para as instituições, o que, aliás, já aconteceu no dia da missa de sétimo dia pela alma do estudante Edson Luís de Lima Souto. Os estudantes e o povo agrediram a polícia, porque o estudante se suicidou no Calabouço. Foi uma barbaridade! Alguns estudantes pegaram ingênuos e indefesos meganhas e tiras do DOPS e prenderam esses inocentes, maltratando-os, seviciando-os cruelmente. Pobres vítimas. Os estudantes são uns monstros!...

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 de abril de 1968)

domingo, 9 de outubro de 2016

RAUL BEIJOU MARIA

Jamais li folhetins, ouvi novelas pelo rádio ou as acompanhei pela televisão. Meu tempo é curto para isso. Mas não sou contra as novelas. Tanto que, épocas passadas, as escrevi (Ah, estômago necessitado, a quanto me levaste!)
Trabalhando em determinada agência de propaganda, eu J. Rui começamos traduzindo a “Filha Adotiva”, para a Rádio Nacional, por volta de 1946. Eram 350 capítulos, se me não falha a memória, transmitidos, de segunda a sábado, em etapas de 15 minutos de duração. J. Rui fazia uma temporada, e, depois, passava-me a coisa. Quando eu me cansava, procedia da mesma forma. Com o tempo, perdemo-nos do original inglês. O enredo ficou por nossa conta. Na hora do revezamento, Rui, para evitar que eu lesse tudo o que andou fazendo com os personagens, contava o que fez com eles. Eu prosseguia. E o resultado foi que a mocinha se casou duas vezes seguidas, porque o parceiro se esquecera de dizer que havia providenciado o casamento...
Na velha Cruzeiro do Sul, escrevi novela para Waldeck Magalhães, bom camarada que acabou covardemente assassinado por anormal perverso. Waldeck já possuía o título da estória, quando me chamou: era “Ventura Roubada”, escolhida pelo patrocinador.
– Por que esse nome? – perguntei ao anunciante.
– Porque minha esposa inventou e acha que dá excelente estória.
– Seja feita a vossa vontade, respondi e... mandei brasa.
Os artistas ganhavam cachês, com exceção do Waldeck, o galã, o único que era contratado pela D-2. Ivo Peçanha, diretor da emissora, me disse:
– Temos verba mensal, para os cachês. Quanto mais você economizar artistas, mais perceberá, porque o saldo será seu.
Ao fim do primeiro mês, tínhamos gastos 975 cruzeiros. Ivo confessou:
– A verba é de mil cruzeiros. Você não economizou e vai ganhar apenas 25 cruzeiros.
Protestei:
– 25 cruzeiros por doze capítulos?
– Não posso fazer nada.
Jurei vingar-me da direção da emissora. Meti os personagens num bote e fiz o bote afundar. Morreu todo mundo afogado...
Salvou-se, apenas, Zélia Guimarães, a mocinha. E o primeiro capítulo do mês seguinte foi diálogo de dois, entre Zélia e Waldeck, porque este, como não recebia cachê, deixou de embarcar na canoa que afundou...
Waldeck protestou:
– Assim não é possível!
O segundo capítulo foi pior: ele sozinho. Zélia, sua noiva, tinha viajado. Como Pedro Bloch criara, havia pouco, o “Teatro Monovox”, na Rádio Ipanema, ora com Rodolfo Maier, ora com Amélia de Oliveira (teatro do qual saíram suas peças de um só personagem, como “As Mãos de Eurídice”, “Morre um Gato na China”, etc.), imitei-o num capítulo de “Ventura Roubada”. E Waldeck tornou a reclamar:
– Temos de dar jeito nisso. Como vai ser o próximo capítulo?
– Você não entra.
– De que forma, então, sairá?
– Somente o narrador e ruídos.
Assim prometi e assim fiz. A direção da emissora, apavorada, aumentou a verba, para que eu usasse mais alguns personagens. A novela, porém, chegou ao final apenas com Waldeck e Zélia, e – pasmem, senhores! – foi muito elogiada, inclusive pela esposa do patrocinador, autora do título...
Não sou contra as novelas. Elas voltaram a obter êxito. São a mania em voga, oferecendo os maiores índices de assistência da televisão. E foi sensação na cidade, saindo até nas manchetes, a informação que uma conhecida me deu, outro dia, de manhã, e que muito me espantou:
– Até que enfim, seu Iolando, Raul beijou Maria[1].
E eu:
– Graças a Deus, minha senhora. Graças a Deus!...

(in Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 01 de agosto de 1945)

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1964)


[1] Raul (Hélio Souto) e Maria (Rosamaria Murtinho) eram personagens principais da telenovela “A Moça Que Veio de Longe”, produzida pela extinta TV Excelsior, às 19h00, no período de maio a julho de 1964, escrita por Ivani Ribeiro e dirigida por Dionísio Azevedo, baseada no original do argentino Abel Santa Cruz.

Hélio Souto e Rosamaria Murtinho

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

À BEÇA

Um jornal do Rio publicou, não há muito, na manchete, a locução adverbial "à beça", com cê-cedilha, como manda o figurino. O diretor foi à redação, reclamar do redator-chefe:
—  O senhor viu a manchete?
—  Vi.
—  Quem é o responsável?
O redator-chefe chamou o editor:
—  O senhor viu?
—  Vi.
—  Quem é o responsável?
O editor chamou o secretário:
—  Viu?
—  Vi.
—  Quem é?
O secretário chamou o chefe do "copy-desk":
—  Viu?
—  Vi.
—  Quem?
O chefe do "copy-desk" chamou um sofredor de sua seção:
—  Quem?
O reescrevedor chamou o repórter:
—  Passei a notícia pelo telefone.
      Assim, voltou, do reescrevedor para o chefe do "copy-desk", deste para o secretário, para o editor, para o redator-chefe e para o diretor, a informação de que ninguém na redação era responsável. Em consequência, chamaram o chefe da re¬visão.   E o diretor foi severo:
—  O senhor viu "beça", com cê-cedilha, na manchete?
—  Vi, sim, senhor. Vi em cima da hora. Se não chego a tempo, saía com dois esses.. .
      O diretor perdeu o rebolado. Esperava tudo, menos aquela informação de que os dois esses esta-riam errados. Mas não perdeu a dignidade de diretor:
—  Espero que isso não se repita.
—  Isso o quê?
—  O senhor ser forçado a trocar letras em cima da hora.
—  Sim, senhor.
      Afastou-se o diretor, pisando forte. O chefe da revisão voltou ofendido e bradou, zangado, para os subalternos:
—  Por causa de "bessa" com "ss", o diretor me espinafrou à beça. Espero que isso não se repita.


(in A Ignorância ao Alcance de Todos; Editora Letras e Artes, Rio de Janeiro, 
1ª edição em 1963, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª em 1964 e 6ª edição em 1965.)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

MORREU CHICÃO

Às vezes, mendigo. Outras vezes, delinqüentezinho. Vivia pelo Aterro da Glória. Tinha casa de campo no Parque Laje. Quando as coisas estavam mais difíceis, colhia papéis velhos para vender a peso, ou reunia plantas silvestres, para comerciar nas feiras-livres, anunciando que eram da flora medicinal. E muita gente acreditava que suas ervas quebravam pedras nos rins, curavam reumatismo, consertavam intestinos ou facilitavam a digestão...
Num dia qualquer daquele abril, no Aterro da Glória, Chicão encontrou algo que lhe pareceu conter valores: embrulho bem feito, de bom tamanho, atirado ao chão. Olhou para os lados: ninguém. Apanhou o embrulho. Afastou-se, a passos rápidos. Em outro local, abriu o “tesouro”: eram livros, novinhos em folha, certamente esquecidos por algum turista...
Chicão ficou feliz! Tirara a sorte grande! Nem um o no bolso, e, de repente, aquela “fortuna”! Dinheiro em caixa!
Numa rua de grande movimento, arrumou os livros no canto da calçada e se pôs a vendê-los, como qualquer camelô, embora não soubesse ler, ao menos, os títulos, para apregoá-los de modo mais comercial...
Passou, porém, a turma do DOPS. Para azar do Chicão, um dos policiais sabia ler. Viu obras de Marx, Engels, Lênin, Dobroliubov, Chernischévisque, Franco e outros. Algum apavorado, logo após a revolução, embrulhara os livros suspeitos, e, temendo a polícia, abandonara o pacote no Aterro da Glória.
O subversivo Chicão foi atirado no tintureiro, cercado de metralhadoras, trancafiado no xadrez, levado para a Ilha das Flores, acabou no presídio. Mas passou a sentir-se o homem mais feliz do mundo. Na prisão, tinha casa e comida. Não precisava de pedir nem de delinqüir. Os demais detidos se organizaram em “coletivo”. O que era de um era de todos. Chicão recebeu roupas, cigarros e até doces às sobremesas. Além de tudo, 200 cruzeiros por dia, dos companheiros, para fazer a faxina da cela.
Quando lhe perguntavam qual a melhor coisa desta vida, respondia sem vacilar:
– É ser preso político. E acrescentava:
– Quando houver outra revolução, vou vender livros novamente, mas na Rua da Relação, bem à porta da Polícia Central...
Contei a história de Chicão e fiz apelo ao Marechal Taurino de Resende Neto, para que não o libertasse. O então presidente da Comissão Geral de Investigações anunciara que iria soltar todos os presos sem culpa, guardados havia mais de 50 dias. Ainda por cima, pretendia processar as autoridades policiais que não obedecessem à sua determinação. Diante disso, também solicitei ao Marechal investigador que perdoasse o delegado Cecyl Borer, para que Chicão não voltasse à vida ingrata do Aterro da Glória ou do Parque Laje, porque, na prisão, ele estava mais feliz do que o delegado Borer aqui fora...
O Marechal não me atendeu. Cometeu a polícia mais uma atrocidade: soltou o Chicão, em julho de 64, no frio, num dia chuvoso. Pouco depois, ele foi encontrado morto, num recanto do Parque Laje, sua casa de campo. Dormindo, levara três tiros. Vestia pijama de flanela, doado pelos companheiros da prisão, e tinha no bolso 400 cruzeiros, resto do lucro obtido no trabalho de faxina.
A 15ª DD quis saber quem matou Chicão. Nada descobriu. Nem seu nome completo foi apurado. O cadáver, no necrotério, recebeu apenas um registro: Francisco de tal. As pessoas que o conheceram informaram que ele não possuía inimigos. Ninguém viu o crime. A polícia achou que um grupo de malfeitores atirara no Chicão, de farra.
E muitos leitores me telefonaram, dando pêsames.


(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967.
Originalmente publicada no Diário de Notícias)

quinta-feira, 31 de março de 2016

O BONÉ

Meu grande sonho era possuir um boné cinzento, de casimira, tal qual o do manequim da “Alfaiataria Londres”, na Rua Nova. Tinha de esperar, porém, que meu avô aparecesse pelo Recife. Esperei meses, mas deixei o manequim mais nu do que qualquer vedete de teatro de revista. Levei o boné de meu sonho e ainda mais a calça e o paletó pregueado nas costas, tudo muito à moda do inverno londrino, apesar do calor recifense em novembro...
Guardei o traje, carinhosamente, a fim de estreá-lo domingo, quando o Moderno iria exibir, na matinal, o filme brasileiro Cidade Mulher, com Bandeira Duarte, sob a direção de Humberto Mauro. E passei o resto da semana a visitar, duas ou três vezes por dia, meu uniforme londrino, no guarda-roupa, para ver se estava tudo em ordem.
No dia, madruguei, emocionado. Depois do banho, a fatiota. A seguir, o bonde de Campo Grande, a caminhada ao sol pela Rua do Sol, à margem esquerda do Capibaribe, e, às 9 horas, já estávamos (eu e meu boné) em pleno saguão do Moderno, na Praça Joaquim Nabuco, à espera de Bandeira Duarte, cuja aparição era marcada para as 10 horas. Eu morava no Beco das Almas (claro que por trás do Cemitério de Santo Almiro), lá no fim da Avenida Arquimedes de Oliveira, quase no cruzamento com João de Barro. E, quando passei, todos os vizinhos surgiram às janelas para ver meu boné – e tenho vaga idéia de que alguns até bateram palmas...
No saguão do Moderno, olhando os cartazes, vi anunciado Haroldo Trepa-Trepa, O Último dos Moicanos e outros filmes da época. Prometi a mim mesmo não mais perder as matinais seguintes, para voltar a usar sempre o boné cinzento, de casimira, muito londrino. E acho que até lamentei não haver fog no Recife...
Foi quando ouvimos, lá fora, umas pipocadas estranhas, e a multidão, espavorida, invadiu o cinema, a gritar que havia rebentado outra revolução. Já estava eu mais ou menos acostumado àquilo. Desde 1930, era a mesma coisa, quase todos os anos. Apesar disso, tratei de fugir, investindo contra a volumosa massa de apavorados, em direção à porta. A massa me arrancou o boné, rasgou meu paletó, mas não venceu meu medo. Consegui passar. Da Praça Joaquim Nabuco, emendei uma corrida só, ganhando, lá adiante, a Ponte Princesa Isabel, a avenida do mesmo nome, o Jardim 13 de Maio, Arquimedes de Oliveira, cemitério. Pulei para uma sepultura mais elevada, agarrei-me às asas da estátua de um anjo, galguei o muro, cheguei ao Beco das Almas. Na debandada louca, fui por cima de muitos soldados que se refestelavam em trincheiras, aprontando-se para defender as esquinas recifenses contra o olho de Moscou. E acabei sendo o único da família ferido na revolução, porque, em dado momento, tropecei num fuzil-metralhador Hotchkiss, caí, e me arranhei.
Fracassada a revolução, surgiu a ditadura de Getúlio Vargas. Os integralistas passaram a apoiar, com discursos e desfiles, os carrascos policiais que cometeram atrocidades maiores que as dos nazistas da Alemanha. Com ou sem culpa, pessoas ilustres foram presas pelos sicários de Filinto Strubling Müller, seviciadas e atiradas em calabouços infectos.
Homens de ciência, das letras, das artes, caíram em mãos dos tiras-assassinos chefiados, no Recife, por Emílio Romano. Para qualquer um ir bater na Casa da Detenção (transformada em Presídio Especial) ou na Ilha de Fernando de Noronha, bastava simples denúncia de desafeto. Pouco depois, o Comandante da Região tomou o Governo, enquanto o Governador eleito pelo povo foi mandado às favas. Na prisão, o hino oficial da alvorada era o maracatu É de Tororó, de Capiba e Ascenso Ferreira. O maior psiquiatra da terra cuspiu na cara do capitão Chefe de Polícia, de dentro da cela, através das grades. E a maioria dos bárbaros vive por aí, impune e fagueira, mandando sempre, e cada vez mais, na política.
Uma coisa, porém, me deixa indignado, e minha revolta aumenta todas as vezes em que encontro Bandeira Duarte, o astro de Cidade Mulher: é que, em novembro vindouro, vai fazer 28 anos de tudo que me aconteceu, naquele domingo, do Moderno ao Beco das Almas, inclusive o tropeção no Hotchkiss que me causou escoriações generalizadas.
E até hoje não sei de meu boné cinzento, de casimira, que era a última moda em Londres. ([1])

(in Telhado de Vidro, volume I; Editora Bradil, Rio de Janeiro, 1967. 
Originalmente publicada no Diário de Notícias)



[1] Nota do autor.
Esta crônica saiu publicada no dia 28 de abril de 1963. No dia imediato, fui convidado a comparecer ao Serviço Nacional do Cinema. Bandeira Duarte, que faleceu pouco depois, e Humberto Mauro prestaram-me significativa homenagem, com discursos. E me devolveram boné exatamente igual ao que havia sido perdido, fazia 28 anos. Guardo o boné com o mesmo carinho com que guardaria um troféu de herói, ganho na revolução que me feriu... – N. de H.


segunda-feira, 28 de março de 2016

“GAÚCHO”

Não me lembro bem para que jornal trabalhava. Tinha saído, havia pouco, das calças curtas. Havia pouco, também, que deixara de ser aprendiz de suplente de revisor, com as seguidas promoções para suplente, revisor, e, então, repórter. “Diário da Manhã”? “Jornal Pequeno”? “A Cidade”? Lembro-me, não.
Um navio, no cais, conduzia de volta à Capital, o presidente da República. Era, na época, Getúlio Vargas. Deram-me a incumbência de ir a bordo, ouvir s. exa., ficar por perto, registrar os nomes de pessoas ilustres que se aproximassem do chefe da Nação, enfim, fazer a cobertura jornalística da passagem do presidente pelo Recife.
Fiz o que me mandaram. Sempre fui bem mandado.
Getúlio Vargas, no tombadilho, charuto, amigos, risos, pedidos, multidão no cais a saudá-lo. Eu, reporterzinho, por perto, de papel e lápis à mão, anotando tudo. De quando em vez, o espocar, o relâmpago e o fumaceiro do magnésio das antigas máquinas fotográficas.
A certa altura, o presidente divisou, lá em terra, no meio da multidão, com seu enorme chapéu, o Ascenso Ferreira, nosso querido poeta de Palmares. Devo informar não ser isto tarefa difícil. Ascenso é de muitas arrobas, volumosíssimo, figura de grande calado, desloca excesso de arráteis. Estando no meio da multidão, esta lhe bate pouco acima da cintura.
E Getúlio:
- Aquele não é o poeta?
- Sim, informaram. É o Ascenso.
- O autor do poema “Gaúcho”?
- Ele mesmo.
O presidente riu e determinou:
- Mandem chamá-lo até aqui.
Correram os mensageiros. Ascenso veio. Subiu as escadas de bordo. Cumprimentou o chefe do Governo. Aceitou o convite para sentar-se a seu lado. E Getúlio:
- Poeta, o senhor sabe de cor o seu poema “Gaúcho”?
- Sim, excelência.
- Pode declamá-lo?
Ascenso não se fez de rogado. E foi assim que ouvi, pela primeira vez, declamado pelo próprio autor, o poema “Gaúcho”:
“Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das cochilhas!
Saí de meus pagos em louca arrancada!
- Para quê?
- Pra nada!”
Ascenso Ferreira

(In Telhado de Vidro. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 de abril de 1964)