A NOTÍCIA da semana, sem dúvida, foi a morte de Ernesto Guevara, médico, argentino, marxista, que largou a medicina e a Argentina para lutar pelo marxismo. O Governo da Bolívia garante que o cadáver é do lugar-tenente de Fidel Castro. O defunto já foi deixado em cova-rasa, sem qualquer marca na superfície. O presidente Barrientos teve pressa de esconder o falecido. Cuba diz que não pode afirmar nem negar. Os jornalistas presentes levantam suspeitas. A família Guevara, também. Editoras correm atrás do diário do guerrilheiro, querendo lançá-lo em livro, mas a Bolívia mostra apenas cópias datilografadas do diário. O homem tido como o maior agente da subversão no Ocidente é, desse modo, glorificado, imortalizado, e em torno dele se forma um mito que persistirá em todos os espíritos, um verdadeiro endeusamento criado pelos seus inimigos...
Afirma Barrientos: “– É Guevara”. Diz um jornalista: “– Guevara é muito mais alto e mais forte que esse defunto aí”. Outro jornalista: “– O líder tinha cabelos pretos e este é ruivo”. Insiste a Bolívia: “– É Guevara. Vimos as impressões digitais. Vimos sua cicatriz na mão. Verificamos a falta de um molar”. Diz o pai de Guevara: “–Não creio que seja meu filho”. E o Governo da Bolívia: “– É seu filho, sim. Quer saber mais do que eu?”...
O pai e o irmão do guerrilheiro tomaram, as pressas, uma condução qualquer e foram bater na Bolívia. Não reclamaram o cadáver nem demonstraram o menor interesse em fazer isso. Quando chegaram ao destino, Barrientos já havia proibido a trasladação para La Paz e autorizado o sepultamento...
O general Ovando Candia disse à imprensa que Ernesto Guevara, momentos antes de morrer, declarara: “– Sou o “Che” e fracassei”. Não teriam sido das mais notáveis suas últimas palavras, como se pode observar. Mas o coronel Zentena Anaya desmentiu o general, num perfeito desrespeito à ordem hierárquica. Afiançou que o superior mentiu. Guevara não falara antes de morrer. E parece que está com a razão, porque o defunto apresentava profundo ferimento na garganta...
Alguns outros guerrilheiros, segundo os correspondentes internacionais, informam que o chefe “Ramon” não era Guevara, mas Ramon mesmo. Então o Governo da Bolívia desmente isso e afirma que o fim do líder foi o fim também das guerrilhas na América do Sul, pois só há nove insurretos em suas matas. E o francês Debray informa – segundo o próprio Governo da Bolívia – que o falecido lhe dissera: “– Só existe um Fidel Castro, mas os “Che” são muitos”...

O repórter Irineu Guimarães, correspondente da France-Press, que foi colega de seminário de Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento da Inflação, e que, durante a campanha eleitoral de Flexa Ribeiro, foi honrosamente xingado por Carlos Lacerda, acabou expulso por Barrientos, da Bolívia, porque noticiou qualquer coisa de transporte feito em caminhões norte-americanos, quando o Governo da Bolívia queria que ele falasse em caminhões cedidos pela Aliança Para o Progresso. Mas teve tempo ainda de ver o discutido defunto e de entrevistar os guerrilheiros presos. Um destes, o “El Gamba”, segundo Irineu, fez declarações “muito sob medida para a imprensa”. Dentre elas: “– Sim, Guevara estava conosco. Conheci-o uma noite e não pude evitar dizer-lhe que o havia reconhecido. Por única resposta, sorriu-me e não proferiu uma só palavra. Era o chefe do nosso grupo”. E acrescenta o repórter: “Os comunicados e reportagens publicados nas últimas semanas sobre um Guevara enfermo, que se arrastava penosamente em lombo de mula, provocaram, por outro lado, muitas reservas”.
Assim, uns afirmam que o homem se acabou. Outros dizem que o defunto deveria ser maior. O Governo da Bolívia não deixou a família identificar o morto. Há em tudo isso, portanto, um ponto importante, muito importante mesmo. Uma pergunta que corre de boca em boca, não somente na minha rua, onde o jornaleiro chama a atenção geral para as manchetes sobre o assunto, mas em todas as ruas, por todas as cidades e países e continentes. É uma pergunta só:
– Guevara morreu?
(In Telhado de Vidro. Publicado no Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1967)